segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A dama, os seguranças e os invejosos

Desculpem-me a sinceridade, mas existem, sim, algumas pessoas superiores a outras. Sem hipocrisia: pessoas de posses, de classe, são melhores que a maioria sem posses, medíocre.Esta é a verdade. Aceitem-na ou lutem dentro de uma mentira falsa de igualdade.

Constatei tal verdade nas ruas de um bairro nobre em São Paulo. Uma dama, seguida de dois seguranças. O maior, mais forte, a seguia sempre de perto. Enquanto o mais mirrado investigava o entorno. Certamente são muito bem pagos, mas sei que eles também constataram a mesma verdade que eu vi. A dama caminhava tranquilamente com seus seguranças. Era vítima de olhares de reprovação. Iveja, claro! Apenas pessoas superiores precisam andar com seguranças, justamente por causa da inveja.

Por muitas quadras eu a segui, de longe. Às vezes os seguranças me olhavam com desconfiança, mas a dama não se abatia e continuava sua caminhada. Por fim, chegaram à mansão. Aí pude perceber que, além de ser uma dama de alta classe, aquela mulher era muito generosa e carinhosa, pois dormia em seus aposentos com os dois seguranças, e todos se cuidavam mutuamente.

A senhora de alta classe? Uma moradora de rua. E os dois fiéis seguranças? Cachorros, que tinham como pagamento o afeto da dama e alguns pedaços de pão.

Fábio Pedro Racoski

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

#microcuento

Billones de estrellas en una sola mirada. Después el Big Bang.

Fábio Pedro Racoski

domingo, 22 de janeiro de 2012

Universo à minha frente

uma mesa,
duas refeições,
um olhar,
eis que toda a estrutura
urbana-caótica-megalomaníaca
transformou-se em poeira
e nada mais exisita.

nada mais
precisava
existir.

Fábio Pedro Racoski

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Recepção

aqueles olhos pretos
me receberam
com tanto brilho
que fiquei vermelho
e o universo
ficou azul

Fábio Pedro Racoski

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O que aprendi com Dom Quixote

Esta tirinha é um "adendo" às tirinhas do Fail Wars, "O que aprendi com o Senhor dos Anéis" e "O que aprendi com Dragon Ball", entre outras. É uma brincadeira, mas também uma jocosa homenagem a um dos maiores escritores da Humanidade.

Leia esta tirinha ao som dessa música:


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Eu e o tempo

eu menino
já homem
ainda moço
já adulto
ainda ontem
já amanhã
ainda antes
já talvez
ainda nunca
já sempre.

ah, tempo!
Senhor das rugas,
mestre de todas
as lições,
menino a brincar
com a vida...

não posso vencê-lo,
vencedor antes do desafio,
mas posso gravar-me
com ferro e sangue
em suas vias,
deixando meus versos
para que outros poetas
vivam a minha,
a nossa eternidade.

Fábio Pedro Racoski

Mulher babaca

mulher babaca!

chega estonteante
é o centro das atenções
escolhe a dedo
as vítimas
de sua falsa amizade.

mulher babaca!

compara-se às outras
apenas nos quesitos
que pensa poder
vencer
só pra humilhar
(ou tentar).

mulher babaca!

exalta pessoas pequenas
diminui pessoas grandes
mas o que quer
é que todos fiquem
no seu nível
suboceânico.


mulher babaca!

só namora quando
vê vantagem
socioeconômica
ou, às vezes,
judicial.

mulher babaca!

só não é mais babaca
porque lhe falta
o cromossomo
ípsilon!

Fábio Pedro Racoski

domingo, 8 de janeiro de 2012

Espera inesperada

se um dia
a voz de todo meu silêncio
no som da multidão
calou sua melodia
de sonho e realidade,
são meus ouvidos
esperando
desencontradamente
por seu canto.

Fábio Pedro Racoski

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A invencível leveza

mil te torcerão o nariz,
dez mil te culparão
por seus próprios erros,
mas tu não cairás.

porque és forte, és deusa,
és mil e és uma,
e nenhum dos onze mil
terá coragem de enfrentar
o que enfrentas
com passos firmes.

Fábio Pedro Racoski

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Depois do fim

Estava cansada de tanto correr. Mas precisava seguir em frente.

Pela manhã, ainda nos primeiros raios de sol quando é possível ouvir a cidade a despertar, ela saiu, como de costume, pelo caminho de sempre. Sentia que aquele dia seria diferente, intenso, assustador, mas ainda não sabia por quê.

Enquanto a luz imensa do sol lhe fazia fechar seus olhos, ela desviava obstáculos que não existiam; coisas de uma cegueira momentânea e do seu caráter infantil, brincalhão, de quem gosta de criar desafios além dos já existentes. Durante um desses desvios, olhou para além do caminho e ouviu um gemido. Parecia ser um animal. Ficou muito assustada – diziam que naquele lugar havia um animal estranho, irritadiço, feioso e fraco, porém cruel. O gemido crescia em tom e volume, o que lhe causava muito espanto mas, ao mesmo tempo, preocupação por socorrer aquele ser. – E se for um daqueles bichos? –, pensava.

A preocupação com aquele ser – que poderia estar doente, em perigo ou arquitetando uma armadilha de caça – venceu o medo, e ela foi a passos secos em direção ao gemido. Depois de algum tempo, encontrou o temido animal: era um filhote, inofensivo. Foi abandonado ali. Estava sujo, com fome e também com muito medo. – Esses bichos desnaturados! –, pensava a salvadora do filhote.

Mas esta era uma época de muita fome. E um dia incomum. Outros animais, famintos, queriam usar o filhote para acabar com um longo jejum, comum nestes dias que sucederam o grande barulho. Ela não tinha forças para enfrentá-los. Decidiu, então, fugir com o filhote.

– Preciso salvar a nós dois, filhotinho! –, dizia ela ao estranho animal, que nada poderia compreender. – Se pelo menos você aguentasse em suas quatro patas, como eu... –, pensava.

Estava cansada de tanto correr. Mas precisava seguir em frente. Sentia que era preciso salvar aquele filhote estranho, sem pelos, com a cara chata e que não conseguia correr com suas quatro patas. Mas ainda não sabia por quê.

Fábio Pedro Racoski

#microconto

Vende-se paixão. Tratar com meu corpo.

Fábio Pedro Racoski

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Faça

se o mundo
lhe dá ventania,
faça o sopro da flauta.

se o mundo
lhe dá enchentes,
faça as lágrimas da melodia.

se o mundo
lhe dá trovões,
faça os acordes do refrão.

se o mundo
lhe dá guerras,
ódio,
rancor,
desunião,
flores,
amores,
dores,
faça versos!

Fábio Pedro Racoski