domingo, 19 de agosto de 2012

O menino perdido

Era uma vez um menino perdido.

O menino perdido tinha sonhos. Adorava voar em suas asas de imaginação. Tanto que se esquecia de voltar à terra e se perdia da realidade. Lá sentia-se seguro, porque não precisava ser ele. Lá, sentia-se livre, porque não havia ninguém para rejeitá-lo nem humilhá-lo novament. Lá, sentia-se, porque não precisava sentir. Nem ser.

Mas o menino perdido teve que crescer. Rosto de homem, tempo de homem, mas continuava sendo um menino perdido. Não queria encarar os sentimentos de homem, tinha medo: desejava continuar voando em suas gastas asas de não-realidade.

Mas o menino perdido tornou-se homem, mesmo assim. E, como homem, apaixonou-se.

Quis levar sua primeira paixão para seu desmundo de sonhos. E sua paixão o quis como outro ser. "Minha Dulcineia é tão linda! Como a amo!", exclamava ao longe, enquanto construía um muro para que ela não chegasse perto. Machucou-a. Machucou-se ao derrubar-se no muro. Quis cortar as asas em pleno voo e acabar com tudo aquilo.

Mas o homem continuou. Seguiu. Encontrou sua segunda paixão. Dessa vez, quis aventurar-se na realidade. Mostrou a ela suas cicatrizes de horas de voo nas trevas da tristeza e do pesadelo. Sentiu um calor no peito como nunca havia experimentado. "Eu a quero! Eu sou dela!", dizia a si mesmo, enquanto se despia, aos poucos, dos tão constantes e confidentes medos que o acompanhavam desde sempre: a insegurança, o medo de ser rejeitado, o pavor de cativar.

Mas o homem ainda era menino. Um menino perdido. Inseguro, medroso, autodepreciativo. Sua falta de confiança o encarcerou em silêncio e, como ela tamém silenciou-se, sentiu novamente tudo aquilo que o afastava do mundo real. Mas agora o menino não tem mais asas. Não pode alçar voos para a imaginação. Apesar de assustador, quer os amores do mundo real. Mas não encontra mais sua estrada. O menino está, de fato, perdido.

Fábio Pedro Racoski

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