sexta-feira, 4 de maio de 2012

A queda

Mais um dia de trabalho duro para Jesuíno. Antes que o Sol tocasse seu rosto, já estava na obra. Paredes a erguer, chãos a fabricar, janelas a emoldurar... O segundo andar de uma grande casa de três andares já podia ser avistado no horizonte em uma vila de casas rasas. O patrão tinha muito dinheiro. Tanto dinheiro quanto as dúvidas que doíam na cabeça de Jesuíno.

O que somos? De onde viemos? Para onde vamos? Por que o salário mínimo não garante todas as necessidades de alimentação, saúde, moradia, cultura, lazer, prazer, pensamento? Por que o tempo não dá uma folga para o cérebro?

Jesuíno estudou pouco. Mas gostava de ler. Paulo Coelho, manuais, Ziraldo, Kafka, Lima Barreto... Por vezes sua cabeça doía, mas gostava dessa dor. Era um masoquismo por conhecimento. Ele sabia que conhecer é poder.

Certo dia, já no terceiro andar, divagando em suas dores entre as palavras que havia decorado de um Nietzsche, Jesuíno distraiu-se e caiu. Caiu. Caiu. Continuou caindo. Não sabia se aquele era o momento eterno das lembranças de uma vida que precede o instante da morte, ou se, enfim, o tempo havia dado uma folga ao seu cérebro. Continuou caindo por horas, dias... Todas as palavras que rasgavam sua mente, todos os pensamentos que doíam em sua cabeça, passaram, ao longo da queda, a ter sabores deliciosos, perfumes agradáveis. A cada palavra degustada mais uma vez, a cada pensamento experimentado novamente, Jesuíno sentia um prazer nunca antes vivido. Seu cérebro parecia se expandir durante a queda. E novas palavras, novos pensamentos, passaram a habitar aquele empreendimento tão atrativo para saberes esquecidos.

Caiu. Acordou com os gritos de sua esposa, algumas escoriações e uma perna quebrada. O corpo doía, mas sua mente estava em êxtase. O patrão tinha muito dinheiro, mandou Jesuíno para um hospital caro. Assim que recebeu alta, matriculou-se para voltar a estudar e começou a escrever as primeiras linhas de seu livro. Uma obra prima. Agora ele tinha algo mais valioso que o dinheiro do patrão.

Fábio Pedro Racoski

0 comentários:

Postar um comentário