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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

My old friend

o silêncio é um velho amigo
daqueles que,
quando aparecem,
odiamos por sua sinceridade
e porque sempre estão
a par da nossa vida.

Fábio Pedro Racoski
(Um comentário sobre "Ode ao ódio",
da Nanda Gregório,
que virou poema)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

#microconto

As palavras lhe fugiam da garganta e corriam para as mãos.

Fábio Pedro Racoski

Procrastino

amanhã, amanhã...
por que não hoje?
meus pés seguem
atrás de pouso
e o pouso
já ficou para trás.

amanhã, amanhã...
por que não hoje?
de tanto deixar
tudo para depois
me tornei
um depois humano.

amanhã, amanhã...
por que não hoje?
o amanhã está
num lugar onde
minha inexistência
inexiste.

amanhã, amanhã...
por que não hoje?
mas o anjo
de olhos negros
e mágicos
me levou pela mão
tempo afora
até o hoje.

e me encontrei.

Fábio Pedro Racoski

Revelando

vou revelar
o que você não via.

vê agora?
meu coração
escancarado
e desavergonhado
todo pra você.

Fábio Pedro Racoski

À nova moda antiga

um abraço apertado
e um beijo na bochecha
já foram alguns.

vamos ao próximo
sonho sonhado
a ser realizado.
quem sabe?

Fábio Pedro Racoski

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Laika e os alienígenas que ouvem cachorros

Certa vez, uma civilização que ouve cachorros decidiu lançar uma expedição rumo a um estranho planeta azul, visto por seus telescópios.

"Deve haver seres magníficos naquele planeta!", disse o chefe da expedição. E lá foram, cruzando o infinito vazio do Espaço e viajando pela Galáxia. Passaram por vários planetas, gasosos, rochosos, todos frios, mortos, desabitados de vida. Maravilharam-se com as cores infinitas pintando o preto infinito.

Até que chegaram ao seu destino: o sistema estelar que abrigava o lindo planeta azul. "É magnífico mesmo! Que belo! Deve haver uma civilização muito evoluída aí!", disse o poeta que acompanhava a expedição. "É impossível um planeta tão belo abrigar uma civilização atrasada e rude", completou.

Era novembro de 1957, em um dos muitos calendários utilizados naquele planeta azul. Por uma fantástica sorte, avistaram uma pequenina nave, com um cachorro dentro. "Estão mandando as boas-vindas com um cachorro, o carinhoso e fiel guardião das civilizações!", disse o biólogo. Impossibilitados de dialogar com "o mensageiro", por questões técnicas, conseguiram apenas ouvir um estranho e desesperado lamento, abaixo transcrito:

"Por que minha casinha está aqui, voando que nem pássaro? Estou com medo! Isso é estranho, estou me sentindo mal. Por favor, me tirem daqui! Eu não sei o que fiz de errado, mas vou aprender a ser uma boa menina. A Laika vai ser uma boa menina! Olha, eu juro que não roubo mais os ossos que sobraram do almoço. Mas me tirem daqui, por favor! Eu juro que não vou estragar essa bola azul que está aí fora. Ela parece boba, não tem nada de divertido nela. Mas me tirem daqui, por favor! Eu estou assustada! Eu juro que vou ser uma boa menina! Por favor!"

Assim terminava sua estranha mensagem. Em meio a lágrimas, a expedição percebeu que aquilo não era um comitê de boas vindas, mas uma bárbara e brutal cena de tortura, até a triste morte daquele nobre ser. Ficaram desolados, atônitos, sem reação: nunca haviam presenciado uma cena tão violenta quanto aquela. "Que tipo de civilização é capaz de fazer isso? Não, a guardiã Laika está certa: não há nada de divertido ali. Apenas seres insanos que, se são capazes disso aqui em cima, imaginem o que fazem lá embaixo?", concluiu o oficial tradutor.

A nave foi embora e o chefe da expedição reportou o ocorrido aos seus líderes, que recomendaram a todos os seus contatos que fiquem bem longe daquele triste, brutal e bárbaro planeta azul. E assim, a civilização que ouve cachorros nunca ouviu nem viu outros seres daquele planeta.

Fábio Pedro Racoski

domingo, 11 de setembro de 2011

Me odeie

me odeie!
por favor, me odeie!
preciso do seu ódio
como quem precisa
de uma porrada
pra saber
que ainda tem vida
correndo nas veias.

me odeie!
seu ódio
é minha certeza
de que não sou
um tanto faz
na multidão.

me odeie!
já sou amado,
mas preciso ser
odiado
pra saber
que sou sentido.

me odeie!
com todas as suas forças,
com toda a sua voz,
com todo o seu desgosto.
pois não vão ser
o suficiente.

Fábio Pedro Racoski

sábado, 3 de setembro de 2011

É tão fácil dizer eu te amo

*Inspirado na música "Amor", da banda Incatenare.

É tão fácil dizer eu te amo,
gritar, cantar,
abrir os braços
e fazer as mesmas
declarações bregas,
cafonas, padronizadas
e apaixonantes.

É tão fácil dizer eu te amo
e calar qualquer resposta
com um beijo apertado.

É tão fácil dizer eu te amo
quando se sabe que a resposta
será igual, por conveniência.

É tão fácil dizer eu te amo.
E é tão difícil
falar que eu te amo.
É tão difícil
proibir meus olhos
e meu corpo
de extravasar
esse amor...

Fábio Pedro Racoski