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domingo, 30 de janeiro de 2011

Eu ela

queria ser um pouco elas
mas sou ele, como sê-lo?
por ser ele tenho zelo
mas quero a luz que é só delas.

queria ser, tanto assim,
a beleza da alma fêmea
pois, mesmo não sendo gêmea
minha, é meu início e fim.

queria ser, ter, doar-me
em versos, em corpo, em alma
todo amor que me dá calma
nesse espírito sem charme.

Fábio Pedro Racoski

A hũu frade dizen...

Descobri, por estas andanças na Internet, uma mistura de duas coisas por que sou apaixonado: rock e cantigas de escárnio e maldizer (trovas medievais).

Xurxo Romani, músico galego, é o autor de tal proeza. Podem encontrar as músicas para baixar - uma a uma - ou o álbum inteiro, no sítio "A Regueifa" : http://aregueifanetlabel.blogspot.com/2009/04/xurxo-romani-escarnho-e-maldizer-2009.html

Entre as cantigas, destaco aquela que foi objeto de um artigo científico meu, do trovador Fernand' Esquio: http://tra.kz/f7hh Letra abaixo (em uma postagem antiga eu o "expliquei": http://www.racoski.com/2008/09/cantiga-de-maldizer-de-fernand-esquio.html) :

A un frade dizen escarallado
E faz pecado quen llo vai dizer
Ca, pois el sab’arreitar de foder,
cuid’eu que gaj’e de piss’arreitado;
e pois empreña estas con que jaz
e faze fillos e fillas assaz,
ante lle dig’eu ben encarallado.

Escarallado nunca eu diría,
Mais que trage ant’o carallo arreite,
Ao que tantas molleres de leite
Ten, ca lle pariron tres en un día,
E outras muitas preñadas que ten;
E atal frade cuid’ eu que mui ben
Encarallado por esto sería.

Escarallado non pode seer
O que tantas fillas fez en Mariña
E que ten ora outra pastoriña
Preñe, que ora quer encaecer,
E outras muitas molleres que fode;
E atal frade ben cuid’eu que pode
Encarallado per esto seer.

A un frade chámanlle escarallado,
E comete un erro quen llo di,
Xa que, pois el é quen de empalmarse pra foder,
Penso eu que é un tío co carallo teso.
E posto que deixa preñadas aquelas coas que se deita
E fai fillos e fillas abundantes,
Antes lle chamo eu ben encarallado.

Nunca diría eu escarallado,
Senón que mais ben trae o carallo teso,
Ó que ten tantas mulleres de leite,
Pois paríronlle tres nun mesmo día,
E ten moitas outras preñadas
E tal frade coido eu que ben encarallado
Debería ser por isto.

Non pode ser escarallado
O que tantas fillas fixo en Mariña,
E que ten agora outra mociña nova
Preñada que xa está cumprida,
E outras moitas mulleres que fode,
E tal frade ben coido eu
Que pode ser encarallado por isto

EDITADO: havia colocado o poema original. Agora está aí a letra da canção.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Autofagia

Peguei o machado do idioma
e golpeei, com ele,
o crânio frágil
do meu eu.
Recolhi os pedaços
estilhaçados
de ossos e miolos.
Comi.
Assim nasceu
minha poesia.

Fábio Pedro Racoski

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Só eu posso

Podem falar
sobre teu corpo.
Podem cantar
sobre teus
atributos
físicos.
Podem descrever
em versos
tua formosura.
Podem rimar
teus músculos,
tua pele,
teus sentidos.

Podem falar sobre
tua carne.

Mas só eu posso
- e só eu sei -
falar sobre ti
além do físico,
em versos
ao teu ouvido.

Fábio Pedro Racoski

Criança tardia

A vida adulta
é, para mim,
uma novidade,
apesar de minha
idade.

Os anos de brincadeiras,
ações sem consequências,
não-responsabilidade,
comodidade monárquica,
enfim, encontraram
um fim.

Agora, a vida me recebe
de braços abertos,
sinalizando as tempestades
e a bonança
no caminho.

A criança não
se foi.
Guardou-se
lá num canto.
Quando for oportuno,
ela voltará,
brevemente.

Fábio Pedro Racoski

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Quero-te assim

Quero-te assim como és.
Quero-te assim porque és.

A música dos teus passos,
a dança da tua voz,
tudo que leva tua marca
do meu sofrer é algoz.

Quero-te assim como és.
Quero-te assim porque és.

Não sejas quem tu não és
apenas para agradar
tolos seres que só querem
em ti jogar seu penar.

Quero-te assim como és.
Quero-te assim porque és.

Gosto de como tu ris,
gosto de como tu andas.
Quando choras só desejo
alegrar-te com cirandas.

Quero-te assim como és.
Quero-te assim porque és.

Não, eu não quero te impor
medidas. Como, se és única?
E o que sinto é desmedido.
Rotular-te é doença crônica.

Quero-te assim como és.
Quero-te assim porque és.

Fábio Pedro Racoski

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Mais uma vez

E mais uma vez
os pulmões se enchem
de paraíso.
E mais uma vez
os olhos admiram
as cores daqui.
E mais uma vez
ouço sua voz,
música celestial.

E mais uma vez
me vejo em você,
num abraço,
sem querer mais
ser eu.

Fábio Pedro Racoski

sábado, 15 de janeiro de 2011

Crônica da morte de números

As enchentes de janeiro. Novamente este tema, em blogues, no Twitter, nos jornais e na mídia de massa por excelência: a televisão. Repórteres atualizando a todo momento o número de vítimas. Mortos: como se só os falecidos fossem vítimas. Lendo o texto do Bruno Cava, "Não estou nem aí para os mortos", refleti sobre o que vejo na TV, o que acontece e sobre o que devemos nós realmente discutir, debater, tuitar, blogar, etc.

O que vejo é um triste espetáculo sem graça, uma telenovela de péssimo gosto, uma "mostra de realidade" (reality show, em inglês) onde o real se perde sob as diversas camadas de narrativas que lembram um dramalhão sonolento. É assim que as mídias - essencialmente a mídia televisiva, mais abrangente - retratam os ocorridos das enchentes no Brasil. Distanciando e escondendo ao invés de cumprir seu papel, o de informar, a imprensa compete com Silvio de Abreu, Boninho, Pedro Bial e Silvio Santos para ver quem consegue mais pontos no Ibope e, para isso, utiliza os mesmos recursos de seus colegas midiáticos: sensacionalismo, populismo, hypes, moda e uma camuflagem tendenciosa para amplificar factoides e esconder fatos, o "photoshop-jornalismo". O cidadão, desacostumado a receber informações que o levem à crítica, engole goela abaixo essa salada que, de tão indigesta, lhe faz derramar uma lágrima seca de compaixão oca.

E o que acontece? Um desastre. A força da natureza levando tudo: tristemente arrasando vilas, casas, famílias, cidades. E muita gente agindo: ajudando, seguindo, prontos para reconstruir e começar de novo, apesar da falta de previsão e prevenção de desastres. Apesar da falta de cidade em seu espaço citadino.

O que realmente podemos e - na minha humilde opinião - devemos discutir é: quais ações precisam ser realizadas para que nada disso se repita. O impacto de tais desastres, a infraestrutura das moradias - remoção de casas em áreas de risco para outros lugares, ações preventivas -, sem acomodar-se na fácil tarefa - que já exerci - de apenas criticar, apontar defeitos, culpar os políticos. A cidade é feita por todos, não apenas por políticos. É responsabilidade também sua, minha, de todos, zelar pelo bom funcionamento desta errante porém amadurescente nação chamada Brasil.

Quanto à mídia sensacionalista e vazia, sugiro apenas que desligue a TV.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Metrô da vida

mundo corre
corre mundo
mundo corre
corre mundo
mundo corre
corre mundo
ninguém para pra te ouvir
nem sequer pra te cuspir

gente corre
gente morre
gente corre
gente morre
gente corre
gente morre
ninguém vive só respira
ninguém ama só suspira

morre verso
morre canto
verso morre
canto morre
morre verso
morre canto
verso morre
canto morre
ninguém mais ouve teu verso
ó, poeta do universo

Fábio Pedro Racoski

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Retalhos de mim

Ah, deixe-me celebrar meus defeitos.
Permita-me zombar de mim mesmo.
Eu me amo,
eu me odeio,
eu não me quero,
eu não me sou.

O erro é meu,
o erro sou eu,
assim como o acerto.
Às vezes
quero me matar.
Às vezes
quero me amar.
Às vezes
quero ser amado.
Às vezes
quero ser sozinho.
Às vezes
sou sempre.
Às vezes
sou nunca mais.
Mas sempre,
sempre, em qualquer hipótese,
sou eu,
poeta.

Fábio Pedro Racoski

Pai e filho

Eu vi meu pai hoje.
Foi tão bom!
Lembrei do nosso passado,
das nossas brincadeiras
de duas crianças,
do nosso andar pela rua
sem camisa...
Reconheci, como da primeira vez,
seu rosto,
suas rugas,
as falhas na barba,
o sorriso comediante,
a beleza tímida
e tênue
daquele rosto comum.
Sofri de alegria
ao ver nossos olhos
inundados de lágrimas.
Gostei de ver tudo isso.
Gostei muito de vê-lo
ali, no espelho.

Fábio Pedro Racoski

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A mulher que eu amo

A mulher que eu amo
tem estrelas nos olhos.
A mulher que eu amo
tem a lua de acalanto.
A mulher que eu amo
tem o sol como servo.
A mulher que eu amo
tem o brilho
das galáxias.
E eu, sem ela,
sou a escuridão
do vago e profundo
vácuo
do universo distante.

Fábio Pedro Racoski

Más notícias a Maiakóvski

Disseram a Maiakóvski
que em algum lugar,
talvez no Brasil,
existisse um homem feliz.

Sinto-lhe dizer,
estimado poeta russo,
mas no Brasil
os poucos homens
que não se viram
metamorfoseados
kafkamente
em baratas, ratos
e porcos,
vivem chorando sangue,
numa tristeza
de dar dó.

Dizem que existe
em algum lugar,
talvez na Rússia,
um homem
que não parou de sonhar.

Fábio Pedro Racoski

Prece de uma mãe

espero que leve, filho,
para toda a sua vida
nos seus olhos esse brilho
que explode em tons musicais
lógicos sentimentais
sua alegria desmedida

filho, siga sua jornada
para toda a eternidade
com sua voz de trovoada
sem calar-se sem parar
de gritar de denunciar
essa gente mal amada

leve-me um pedaço, amor,
seja mãe e seja pai
seja o mundo e seja amor
que vai e nunca se esvai.

Fábio Pedro Racoski

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Momentos

O último café
com meu pai,
a última conversa
com minha irmã mais velha.
A última visita
à casa da minha avó
paterna.
A última comilança,
o último suspiro
adolescente,
a última infância,
a última ilusão,
o último primeiro
sonho...

Momentos que deixaram
marcas, cicatrizes.
Momentos que ajudaram
a me esculpir.

Mas agora minha vida
é feita dos curtos eternos
momentos
com você.

Fábio Pedro Racoski

Comer

Comer.
A grande missão,
o grande artifício,
o grande fato
da humanidade.

Comer.
Desde o início dos tempos.
Devorar o semelhante.
Com os olhos,
com ideias,
com tinta,
com música,
com carne.

Comer.
O eterno ciclo.
Devorar o semelhante,
vomitá-lo
e alimentar a ambos,
como uma mãe pássaro
dando de comer
aos seus passarinhos.

Comer.
Tarefa indigesta
quando há um glutão
que quer ser
antropófago
de si mesmo
no outro.

Fábio Pedro Racoski

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Ossos

Ossos.
Carne, músculos,
braços, abraços,
beijos, gritos.

Ossos.
Passos, pés,
quedas, lágrimas,
socos, pulos.

Ossos.
Peso, gravidade,
vida, fim,
terra, vermes.

Restamos nós.
Além dos ossos.

Fábio Pedro Racoski

domingo, 2 de janeiro de 2011

Uma menina chamada Luz

Era uma vez uma menina chamada Luz. Tinha 10 anos, feição de anjinho caboclo. Morava numa cidade como as outras: cheia de pessoas indo, vindo, enganando e se enganando.

Os coleguinhas pálidos da escola caçoavam da Luz. Diziam que ela era feia, encardida, que seus cabelos pretos pareciam piche de asfalto. Luz ficava triste, chorava, queria sumir daquela escola pálida, de gente pálida, com almas pálidas. Queria sumir desse mundo pálido e insosso.

Certo dia, em uma das voltas à sua casa, banhada em lágrimas, a mãe de Luz quis saber qual o motivo para tanto choro. “Ninguém gosta de mim, mãe! Dizem que eu sou feia e suja! Quero sumir, mãe! Vamos sumir, mãe?”, dizia Luz, em meio a soluços. Nessa hora, a sabedoria de sua mãe deixou-se mostrar em algumas palavras. “Eles tem inveja de você, filha! Eles queriam ser você, ver você, mas não conseguem viver perto de você, porque estão na escura prisão da ignorância.”

Ouvindo aquelas palavras, Luz encheu o peito de coragem, voltou à escola, onde o silêncio substituiu as zombarias. Silêncio de espanto, respeito: Luz brilhava como o sol, iluminando aquela sala de aula fria e vazia de sentido.

E a menina com feição de anjinho caboclo cresceu. Hoje uma mulher plena, admirada e desejada, Luz segue a brilhar como o sol. Sempre. Mas agora não brilha só.