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quinta-feira, 1 de abril de 2010

A fuga

Era mais um dia de trabalho duro para Jair. Segunda-feira, cinco da manhã, e já estava pronto, com seu uniforme de piloto e capacete. A velha moto custava a pegar no frio matinal, mas, depois de muito barulho – o que certamente incomodava os vizinhos –, saía como um veículo de competição.

Jair trabalhava do outro lado da cidade. De madrugada, sem trânsito, demorava uns quarenta minutos para chegar até a firma. O vento frio cortava a pele de suas mãos debaixo das luvas. A sensação era horrível para ele, ainda mais o Jair, que odeia frio. Era um arrepio que o fazia piscar mais fortemente os olhos.

Aquela terça-feira prometia ser diferente, desde o café com leite extremamente doce tomado às pressas. Já próximo ao serviço, Jair piscou mais forte novamente e, inexplicavelmente, não conseguia abrir os olhos. Desesperado, tentou parar a velha moto, mas esta seguia num acelerando insano. Jair pensou que ia morrer. Sentiu que a moto era puxada, e que o frio havia sumido.

Um estrondo. Desmaio. Depois de algumas horas, Jair abre os olhos. Ainda enxergando vultos, percebe uma luz solar estranha, incomum para aquela estação e aquela cidade. Sente ares quentes tocarem sua jaqueta de couro, o que lhe faz sentir como numa panela de pressão. Arranca do corpo a jaqueta, ficando apenas com a surrada camiseta azul, já tomada pelo suor. Ainda sem enxergar de forma satisfatória, Jair procura sua moto, sem encontrá-la. “Fui roubado!”, repetia. Cambaleia de um lado a outro, até chocar-se com uma parede. A náusea causada pelo clima começa a diminuir; Jair esfrega as mãos nos olhos e consegue melhorar o foco de sua visão. A parede onde estava encostado era transparente. Alguns metros à direita, e outra parede de vidro, acrílico ou coisa parecida. O mesmo para todas as direções: estava preso numa cela invisível.

“Preso numa cela de artista moderno, sem minha moto, só com meu capacete, minha jaqueta e minha mochila. O que mais pode acontecer de errado agora?”, indagava-se Jair, antes de perceber a paisagem. Estava numa praia: areia e mar, menos o chão pobremente pavimentado de sua cela. Umas palmeiras para um lado, uns coqueiros para outro lado, uma selva do lado contrário ao mar. E mais nada: parecia um lugar deserto.

Os braços já estavam roxos de tanto Jair beliscar-se. “Acaba, sonho maldito. Preciso ir trabalhar!” Ele não acreditava que aquilo era real. Afinal, num instante ele estava numa cidade longe do mar, indo trabalhar; no outro, depois de acordar de um desmaio estranho, estava num lugar que lembrava as fotos do Havaí, das praias nordestinas, daqueles lugares no Oceano Pacífico. “O que eu comi pra pirar assim?”, questionava-se Jair, ainda cético com seu novo mundo.

Desistindo de não acreditar, ou entrando na loucura do que acreditava ser sonho, Jair gritava por ajuda. “Tem alguém aí? Pato Donald, Saci, Angelina Jolie?”, brincava, assustado, com seu delírio. Já rouco, percebeu que alguém – ou alguma coisa – se aproximava lá no horizonte, vindo da selva. Era muito peludo para ser humano. E muito alto também. Ao aproximar-se e descer para as quatro patas, Jair percebeu que se tratava de um urso. Viu que o animal trazia uma bolsa pendurada no pescoço. Dessa bolsa, o urso tirou, com suas patas desajeitadas, um punhado de amendoins, que jogou para Jair, por cima da cela transparente.

“Agora só falta esse urso falar comigo!”, ironizava-se Jair, que tentava entender qual a razão de um urso alimentá-lo, ele, um ser humano, dentro de uma cela de vidro. Quase como uma resposta a Jair, o urso falou. “Venham! Ele acordou! Deve estar com muita fome.”, dizia o urso para alguém que não era o ser humano ali em questão. Dito isto, surgiu da selva um punhado de ursos. Filhotes, velhos, grandes, pequenos... Uma multidão de animais quadrúpedes com o pelo escuro.

Aqueles ursos vieram para ver Jair. “Será que vieram porque eu sou o almoço?”, perguntava-se Jair, já sem humor e apavorado. Poderiam ter vindo para assisti-lo, ou por um ritual desconhecido. Mas o que Jair logo percebeu, é que aqueles ursos vieram “passear num zoológico”, e a única atração era ele. Essa resolução o deixou mais assustado e, no ápice do medo, o cérebro de Jair planejava fugas. Quebrar os vidros, como? Pular sobre as paredes, de que forma (pareciam altas)? Até que chegou a um plano que envolvia a maior habilidade do animal humano: enganar. Era simples: finge estar doente, um dos ursos entra para ver o que está acontecendo, dribla o urso e foge. Simples, sim. Fácil? Com certeza não.

Um grande alvoroço dos ursos – devia ser o fim de semana deles. Jair aproveitou para fazer sua cena de pantomima. Pôs a mão no estômago e fez-se cair. A multidão de ursos ficou quieta. O primeiro urso – aquele que lhe alimentou – abriu uma porta corrediça, também transparente, que Jair não identificara na cela. Entrou, ficou olhando o ser humano ali caído. No momento que colocou o focinho dentro da bolsa que carregava, Jair levantou numa agilidade de ginasta, jogou o capacete na testa do animal e saiu a correr pela porta – agora visível, pelos reflexos dos vidros sobrepostos. Antes do urso que ia socorrê-lo pegá-lo, Jair fechou-o dentro da cela.

Jair corria como um atleta olímpico. A multidão de ursos continuava parada, do lado de fora, assustada com a fuga de um animal perigoso. “Deu certo! Ninguém veio atrás de mim!”, disse Jair, comemorando sua vitória. Mas era cedo para comemorar: Jair sentiu uma picada na coxa. Quando olhou para trás, viu um urso que parecia sorrir. “Pegamos esse fujão!”, dizia o urso. Com o veneno começando a fazer efeito, Jair perguntou, ebriamente, aos algozes ursos: “Por que vocês me querem numa jaula? Por que eu sou atração para um bando de animais selvagens?” Antes de desmaiar sob o efeito do tranquilizante, ele ouviu a resposta do urso. “Será que ainda não percebeu? O único animal selvagem aqui é você!”

Um estrondo. Desmaio. Depois de algumas horas, Jair abre os olhos. Ainda enxergando vultos, percebe luzes estranhas, incomuns para sua selva. Sente ares quentes tocarem seus pelos, o que lhe faz sentir mal. Ainda sem enxergar de forma satisfatória, o urso Jair encosta-se nas grades de sua cela. “Não consegui!”, repetia. Cambaleia de um lado a outro, até perceber que estava novamente em sua realidade. A náusea causada pelo tranquilizante começa a diminuir. “Era um sonho. Eu sonhei que era humano, e tinha um emprego.”, lamenta o urso, enquanto espera pelo dia seguinte, que será domingo. Muitos humanos para vê-lo, talvez devorá-lo.

2 comentários:

  1. Falando sério, o que eu mais gostava no zoológico era da árvores... por isso q sempre opto pelo jardim botânico ^^

    O urso sonhar q tinha um emprego foi uma sacada genial! E não importa quem tá dentro da jaula, a "maioria" sempre será circunstancialmente mais humana.

    ;D

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