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quinta-feira, 11 de março de 2010

Do outro lado

Ela estava, enfim, em casa. Poderia descansar e tinha todo o tempo do mundo para lazer. Ligou a televisão. Passou por alguns canais e parou onde um filme antigo passava.

No filme, Edith senta em sua poltrona amarela e abre um livro. Antes de terminar o primeiro parágrafo, um barulho estranho a faz levantar de curiosidade. A trilha sonora de suspense sobe, mantendo o rasqueado das cordas dos violinos até que “SOCORRO!”. Um grito de ajuda se estende ao ouvido de Edith desde a esquina, lá fora. Era uma voz em processo de mudança, de um garoto adolescente.

Edith, então, larga o livro em sua poltrona amarela e sai a correr em direção à esquina do socorro. A câmera acompanha trêmula sua trajetória de dúvida, até mostrar, em plano aberto, o menino de uns quatorze anos, com roupas dos anos 60 – época do filme. “Ela quer me matar, moça! Ajude-me!”, disse o menino em bom português dublado. “Quem quer matá-lo?”, perguntou Edith, ainda confusa com o efeito do grito.

“A mulher do outro lado!”, respondeu o garoto. Ela era quem queria matá-lo. E, com esta resposta, a trilha sonora novamente rouba a cena, com fórmulas repetidas de sons melodiosos. A câmera mostra, demoradamente, a reflexão amedrontada de Edith – que parecia saber quem era a mulher do outro lado – e o pavor fugitivo do garoto. Eis que surge mais uma fala atrasadamente roteirizada: “vamos fugir no meu carro, garoto.”, disse Edith, levando o guri até seu Ford marrom. A câmera, então, mostra Edith entrando em casa, para pegar as chaves.

A televisão para de transmitir o filme. Algum engraçadinho lá fora havia desligado a chave de energia. Ela, que estava gostando do programa, foi tomada por um ódio inexplicável. Viu o garoto lá fora, avaliou seu sorriso de quem fez estrepolia – o que aumentou seu ódio. Instintivamente, abriu a gaveta na cozinha e pegou a maior e mais afiada faca que tinha. Ao cruzar os batentes da porta, sentiu um arrepio no corpo, como se tivesse atravessado uma queda d'água. O arrepio foi acompanhado de um barulho estranho que ela ignorou. Saiu com arma em punho, decidida a sangrar mortalmente aquele garoto.

“Ela já está na rua, moça!”, disse o garoto, ainda mais apavorado. Edith apressa-se a procurar a chave do Ford, mas a mulher do outro lado aproximava-se como uma leoa em caça. Edith encontra as chaves mas, antes de dar a partida, presencia o derramamento de sangue promovido pela misteriosa mulher tendo como cenário o coração do pobre garoto.

“O que você fez, sua assassina!?”, espantou-se Edith, sem reação a tal ocorrido. “Eu matei, sim! São dias difíceis, e eu só queria assistir televisão tranquilamente!”, respondeu a mulher do outro lado. A câmera, então, dá ênfase ao rosto de revolta de Edith e mostra sua reação, atirando-se sobre a mulher do outro lado, que reage rapidamente, cortando sua garganta.

Depois de limpar a faca ensanguentada na camiseta do garoto, a mulher do outro lado invade a casa de Edith. Agora poderia descansar e tinha todo o tempo do mundo para lazer. Sentou em sua poltrona amarela, pensou em ligar a televisão, mas acabou abrindo o livro que ali estava. Lá, uma história sobre assassinatos e infanticídios...

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