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domingo, 28 de março de 2010

A Vênus, de Willendorf

Ó, Vênus de Willendorf,
perfeição da beleza
de um tempo
que ninguém sabe.
Tuas curvas
se perderam na
estrada do tempo.
E a retilínea estética
greco-avon
tomou teu lugar.

Ó, Vênus de Willendorf,
estes tempos meus
são cruéis.
Nada é belo,
nada é certo,
tudo deve ser simétrico,
plastificado e sem graça.

Ó, Vênus de Willendorf,
tua beleza se perdeu
nas frequentes mudanças
do sensual feminino.

Ó, Vênus, de Willendorf,
tenho medo que
os homens se percam de ti,
e inventem uma
falsa beleza feminina
com gogó, pelo no peito
e barba.

Fábio Pedro Racoski

sexta-feira, 26 de março de 2010

Apático não

Não, não me espere
e nem me procure
nos caminhos certos.

Estou nos caminhos errados.
Sou errado.
Não sei dizer eu te amo.
Não sei olhar nos seus olhos
com luzes de paixão.
Não sei te fazer carinho
nos cabelos curtos,
nos ombros, no rosto
de bochehcas retilíneas.

Sei é ser bruto,
sentir, chorar, amar,
mas não apresentar.
Sei é que sinto
e o que te sinto
sei que é bom.

Fábio Pedro Racoski

quarta-feira, 24 de março de 2010

Imprensa Livre

Canalhas, babacas, imbecis. Estes somos nós quando elegemos e aplaudimos canalhas, babacas, imbecis.

O CQC, programa de jornalismo e humor transmitido pela Band, promoveu um espetáculo-denúncia que merece ser visto e revisto.Clique neste atalho para a primeira parte do "Proteste Já" sobre desvio de doações na prefeitura de Barueri. São cinco partes, que podem ser encontradas na descrição no Youtube.

E, para quem já viu:

terça-feira, 23 de março de 2010

Homem raiz

Era uma época de sol quente, daqueles que torram a pele à sombra. Naquela época, sentava-se no banco da praça, todo dia, às doze horas, um velho - talvez velhíssimo - homem, de barba e cabelos grisalhos, compridos o bastante para mostrar a negação à calvície corriqueira da idade.

Este velho homem chorava sob o sol. Chorava quieto, timidamente, e ninguém sabia por que. O chapéu usado vez em quando fazia sombra nos olhos, mas não conseguia esconder as lágrimas que desciam lentamente sobre as rugas. E o mistério se seguia naqueles dias de calor.

Volta e meia alguém abordava o velho senhor. Tentavam puxar conversa, saber o motivo dessa tristeza incômoda. Nada... O velho senhor acenava com a cabeça, educadamente, mas continuava quieto em seu pranto quieto. “É caduco!”, “é louco!”, “é velho, mesmo; ninguém se importa.”, diziam os passantes daquela praça tão desarborizada, cheia de cimento calando a terra e postes roubando o cenário das árvores.

Mas um dia a época de sol quente acabou. Seu fim foi trágico: ventos fortes, furacões, tornados, enchentes... A praça cinzenta onde o velho senhor costumava chorar teve suas calçadas arrancadas e seus postes derrubados. A natureza estava de saco cheio daquele lugar.

Para surpresa de todos, o velho senhor sobreviveu e, com a chegada da bonança, saiu às ruas, visitou os escombros da praça. Pela primeira vez sorriu. Um sorriso de transfiguração divina, um sorriso infantil. Começou a fazer buracos na terra exposta. Pegou do bolso um pacote, e do pacote sementes, que punha com cuidado no chão revolvido.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Amor atípico

Era um casal estranho.
Ela tipo Cyndi Lauper,
ele tipo Iggy Pop.

Se conheceram
numa festa de Rock,
tipo Raul Seixas.
Um amigo dele tipo Victor Jara
o apresentou à irmã
de sua amiga tipo Debbie Harry.

Os dias se passaram
e a saudade aumentava
assim como a frequência
dos encontros.

Até que, num belo dia,
ele se declarou, tipo Roberto Carlos
e ela, tipo Rita Lee,
fez uma graça, mas disse sim.

E hoje vivem seu amor
ao contrário do destino.
Não tipo Sid e Nancy,
mas tipo Cascatinha e Inhana.
E seus filhos seguem essa história,
tipo a mais bela canção.

Fábio Pedro Racoski

quinta-feira, 18 de março de 2010

Hominídeo

Nossos saberes dizem
que Humanidade é nova.
Um bebê na face da Terra.
Ledo engano.

Mal sabemos que a Humanidade
é anterior ao Humano.
A Humanidade surgiu
antes mesmo da criação
do Cosmos.
E o Cosmos foi obra sua.

A Humanidade criou estrelas,
planetas, galáxias.
A Humanidade criou os cometas,
o ar, as moscas, a água.
Criou o Ser Humano
até o advento do Homo Sapiens.

A Humanidade é antiga,
divina, cósmica,
o segredo e a verdade.
A Humanidade é tão antiga
que é do dia depois de amanhã.
É e está além do tempo,
além dos humanos.

Fábio Pedro Racoski

segunda-feira, 15 de março de 2010

"De Crasso"

Lá vai o gordo,
com seu andar pesado,
com suas capas de gordura
ocultando quem
realmente é.

Lá vai o gordo,
sorridente, piadista,
sequestrador
de sua própria alegria
disfarçada em anedotas.

Lá vai o gordo,
um Homo Sapiens mas,
para muitos,
um paquiderme bípede
fora do seu habitat.

Lá vai o gordo que,
como você,
sofre, ri, chora, trabalha.
Um gordo que,
ao contrário do que pensam,
não é um boneco risível.

Fábio Pedro Racoski

quinta-feira, 11 de março de 2010

Do outro lado

Ela estava, enfim, em casa. Poderia descansar e tinha todo o tempo do mundo para lazer. Ligou a televisão. Passou por alguns canais e parou onde um filme antigo passava.

No filme, Edith senta em sua poltrona amarela e abre um livro. Antes de terminar o primeiro parágrafo, um barulho estranho a faz levantar de curiosidade. A trilha sonora de suspense sobe, mantendo o rasqueado das cordas dos violinos até que “SOCORRO!”. Um grito de ajuda se estende ao ouvido de Edith desde a esquina, lá fora. Era uma voz em processo de mudança, de um garoto adolescente.

Edith, então, larga o livro em sua poltrona amarela e sai a correr em direção à esquina do socorro. A câmera acompanha trêmula sua trajetória de dúvida, até mostrar, em plano aberto, o menino de uns quatorze anos, com roupas dos anos 60 – época do filme. “Ela quer me matar, moça! Ajude-me!”, disse o menino em bom português dublado. “Quem quer matá-lo?”, perguntou Edith, ainda confusa com o efeito do grito.

“A mulher do outro lado!”, respondeu o garoto. Ela era quem queria matá-lo. E, com esta resposta, a trilha sonora novamente rouba a cena, com fórmulas repetidas de sons melodiosos. A câmera mostra, demoradamente, a reflexão amedrontada de Edith – que parecia saber quem era a mulher do outro lado – e o pavor fugitivo do garoto. Eis que surge mais uma fala atrasadamente roteirizada: “vamos fugir no meu carro, garoto.”, disse Edith, levando o guri até seu Ford marrom. A câmera, então, mostra Edith entrando em casa, para pegar as chaves.

A televisão para de transmitir o filme. Algum engraçadinho lá fora havia desligado a chave de energia. Ela, que estava gostando do programa, foi tomada por um ódio inexplicável. Viu o garoto lá fora, avaliou seu sorriso de quem fez estrepolia – o que aumentou seu ódio. Instintivamente, abriu a gaveta na cozinha e pegou a maior e mais afiada faca que tinha. Ao cruzar os batentes da porta, sentiu um arrepio no corpo, como se tivesse atravessado uma queda d'água. O arrepio foi acompanhado de um barulho estranho que ela ignorou. Saiu com arma em punho, decidida a sangrar mortalmente aquele garoto.

“Ela já está na rua, moça!”, disse o garoto, ainda mais apavorado. Edith apressa-se a procurar a chave do Ford, mas a mulher do outro lado aproximava-se como uma leoa em caça. Edith encontra as chaves mas, antes de dar a partida, presencia o derramamento de sangue promovido pela misteriosa mulher tendo como cenário o coração do pobre garoto.

“O que você fez, sua assassina!?”, espantou-se Edith, sem reação a tal ocorrido. “Eu matei, sim! São dias difíceis, e eu só queria assistir televisão tranquilamente!”, respondeu a mulher do outro lado. A câmera, então, dá ênfase ao rosto de revolta de Edith e mostra sua reação, atirando-se sobre a mulher do outro lado, que reage rapidamente, cortando sua garganta.

Depois de limpar a faca ensanguentada na camiseta do garoto, a mulher do outro lado invade a casa de Edith. Agora poderia descansar e tinha todo o tempo do mundo para lazer. Sentou em sua poltrona amarela, pensou em ligar a televisão, mas acabou abrindo o livro que ali estava. Lá, uma história sobre assassinatos e infanticídios...

segunda-feira, 8 de março de 2010

Ela (um poema à mulher)

Se vivo,
se canto,
se me levanto
e durmo
e rio
e sofro,
é simplesmente
por ela.

Ela, que embala meus sonhos
e cuida de mim,
me ensina e me dá vida.

Ela, que tem paciência comigo
e me compreende
melhor que eu mesmo.

Ela, que ousa entrar
nesse coração vadio
e ficar ali para sempre.

Ela, que sorri entre os cabelos
e me faz revelar-se
apaixonado.

Por ela, por elas,
além do tempo
e da saudade,
é que movo-me,
que amo,
que sinto.

Fábio Pedro Racoski

Escapem para lá!

Preciso divulgar a mais feliz novidade da blogosfera: a Vanessa, minha grande amiga e literata excelente, criou um blogue!

http://escapismoss.blogspot.com/

Visitem o ESCAPISMOS: a partir de agora, textos da melhor qualidade neste blogue. Eu garanto!

sexta-feira, 5 de março de 2010

Bend brothers

Hoje vi um filme que, já posso dizer, mudou minha vida. Um filme que me fez correr atrás de um instrumento musical quase empoeirado em meio a minha coleção de instrumentos adquiridos por curiosidade, tentativas frustradas de aprendizado ou, simplesmente, paixão pela música. E esse instrumento foi a harmônica, também chamada gaita de boca.
E o filme que me impulsionou a essa busca foi um antigo: “The Blues Brothers”, ou “Os Irmãos Cara de Pau” em português. Não sou crítico de cinema – nem brinco de sê-lo –, não sou especialista na sétima arte, e talvez essa obra protagonizada por Dan Aykroyd e John Belushi nem seja considerada uma pérola do cinema. Mas diverti-me muito ao acompanhar a trama dos politicamente incorretos irmãos na reconstrução de sua banda.

O filme, apesar de ser comédia, é um tributo à boa música estadunidense. Aqui, especialmente, o blues, a música negra. Participações de Ray Charles, Cab Calloway, Aretha Franklin e James Brown ajudam a abrilhantar essa homenagem. Até mesmo a dança típica dos irmãos Elwood e Jake é empolgante. Tudo “soul”, alma, no sentido literal da palavra mesmo. E, claro, a cena do show, onde temos os pequenos solos de gaita, fez-me recordar daquele instrumento que ousei esquecer.

Procurei, encontrei. Aqui está: minha terceira gaita (a primeira, daquelas “paraguaias”; a segunda, uma Hering que enferrujou, mas onde aprendi algo). Busquei na Internet algo sobre técnicas para tocar blues na gaita – uma harmônica diatônica tem notas em uma tonalidade, e o músico precisa saber tirar mais notas, as “bends”, para as escalas do ritmo. Nas primeiras tentativas, uma das palhetas (lâminas dentro da gaita, que fazem as notas ao vibrarem com o sopro ou a sucção) soltou, e veio para dentro de minha boca, quase esquartejando minha língua. Com uma Bluesband da Hohner International (marca chinesa, que copia porcamente as boas gaitas da Hohner), não ia dar.

Por isso, hoje mesmo vou comprar uma Hering simplesinha – mas que não é assassina! – para tentar brincar de blues. Não como Elwood, nem como os verdadeiros grandes gaiteiros, mas como eu mesmo, calejando a língua para um pouco de divertimento musical.

terça-feira, 2 de março de 2010

"Rápida" pizza

"Sua pizza está saindo daqui agora. Só vai demorar mais um pouquinho."

Essa foi a resposta que recebi da atendente quando liguei para a pizzaria, cobrando o pedido que já demorava uma hora e vinte minutos.Nós, em casa, sedentos por uma refeição nada saudável e gulosa, esperando por uma pizza que tardava a encontrar o rumo de nossa casa. Uma hora e vinte, é demais para um estômago sedento por "junk food".

"Ai meu Deus, liga de novo!", diziam os companheiros da refeição que ainda não chegava. Uma hora e meia: ouvimos o barulho de uma moto. Era o vizinho chegando em casa. Uma hora e quarenta: ao longe, pode-se ouvir o uivo de um carro rasgando o ar. Uma hora e cinquenta: o ódio mortal começa a tomar meu coração.

"Não queremos mais essa merda de pizza. Fiquem com ela, engulam!", dizia eu à moça da pizzaria para, depois, ouvir a resposta: "a pizza acabou de sair daqui, então o senhor resolva com o entregador". Nem um mísero pedido de desculpas, nem uma retratação, nada. Duas horas de espera, DUAS HORAS! E eis que chega o entregador. Este, pelo menos, pediu desculpas, deu uma explicação não convincente que haviam muitos pedidos, e blá blá blá. Duas horas: tempo suficiente para abastecer de ódio o apetite do sábado à noite.

O pedido foi devorado, dizimado, como um ritual de despedida: já não teremos mais o sabor das pizzas feitas naquele recinto. Será outra empresa, serão outras desculpas, outras separações, até aprendermos a comer coisa melhor.