Páginas

sábado, 30 de janeiro de 2010

Vou-me embora de Pasárgada

Vou-me embora de Pasárgada.
Lá eu não sei quem é rei,
ainda que alguns tentem
arrumar plebeus
para chicotear.

Vou-me embora de Pasárgada.
Lá, a mulher que eu quero
é apedrejada, condenada
a viver nas sombras
dos becos.

Vou-me embora de Pasárgada.
Lá, a realidade não é real.
Lá, as pessoas são planas,
superficiais e traiçoeiras.
A fogueira das vaidades...

Vou-me embora de Pasárgada,
ainda que meus amigos
lá se afoguem
no rio de quem tenta
remar contra a correnteza.

Vou-me embora de Pasárgada.
A mãe d'água não existe.
O sonho acabou.
Quero o cimento sujo
e fedorento
das ruas cruéis
de minha vida real.

Fábio Pedro Racoski

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Vida substantiva

Maternidade, menino, enfermeiras, casa.
Periferia, descampado, pés, joelhos, sangue.
Escola, lanche, alfabeto, roxo, azul, vermelho.
Colégio, festa, professora, escuro, luzes.
Faculdade, trabalho, ônibus, terminal.
Música lenta, olhos, braços, boca.
Famílias, mãos, lábios, corpos, motel.
Anéis, viagem, sapatinhos de lã, hospital.
Olheiras, madrugada, Johnson & Johnson, termômetro, enfermeira.
Melodia, cama, noite, monstros.
Trabalho, rua, jornal, desespero.
Escola, portão, diretoria, conversa.
Toga, beca, lágrimas, satisfação.

Rugas, cinza, crianças, feriado.
Mulher, saudade, estado civil, solidão.
Histórias, memórias, lembranças, crianças, sorriso.
Família, capela, lágrimas, descanso.

Fábio Pedro Racoski

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Ser pobre é foda.
Mas que moda
de dizer-se fodido!
Fábio Pedro Racoski

Pianíssimo

Pianíssimo.
O calçado suspenso,
os passos de felino,
adentra a escuridão
ao encontro cretino.

Pianíssimo.
Uma cama lhe espera
repleta de sabores
doces suaves temperos
que acalmam seus temores.

Pianíssimo.
As estrelas assistem
risonhas, lá no céu,
o que sós iluminam
ao casal num bordel.

Fábio Pedro Racoski

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Choque

Uma dor,
daquelas que não tenho palavra,
percorre todo meu corpo.
Dos cabelos aos pés,
fazendo brotar
dez dores a mais.

É uma descarga elétrica
que me eletrocuta
a cada minuto.
E já não tenho energia
para combater estes volts.
Já não tenho potência
para vencer estes watts.
Tenho poucos ohms
para impedi-la de vencer-me.

Trêmulo, não vejo teu rosto.

Sou um homem-pilha
prestes a estourar
de desgaste e sofrimento.
Fábio Pedro Racoski

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Homo Musicalis


Não voamos como as águias,
mas fazemos voar.
Não saltamos como os gatos,
mas fazemos escadas.
Não corremos como guepardos,
mas fazemos rodas.
Não cantamos como os sabiás,
mas fazemos flautas.

Não somos belos como anjos,
não somos tudo como Deus.
Somos animais
com um cérebro fantástico
e dez dedos para dedilhar
magníficas teclas,
magníficas cordas.

Somos seres de música.

Fábio Pedro Racoski

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Vamos cantar para o Haiti

Vamos cantar para o Haiti.
Todos juntos, mão com mão,
numa corrente solidária,
levando aos miseráveis
ração, água, telhas de zinco
e muito carinho inútil.

Vamos cantar para o Haiti.
Aproveitemos a ocasião.
Está nos noticiários, nos jornais,
nas ruas, nas imagens.
E, daqui uns dias,
ninguém mais quer saber.

Vamos cantar para o Haiti.
Veja meu novo trabalho,
minha santidade, meu carisma,
minha solidariedade hipócrita.
Veja: eles precisam de ração.
Escola? Emprego? Humanidade?

Vamos cantar para o Haiti.
Afinal, todos queremos
um pouco dessa miséria
para fazer-nos santos.
Todos queremos mantê-los miseráveis
para o próximo grande evento.

Vamos, amigo: cante para o Haiti.
Na verdade, você canta ao diabo!

Fábio Pedro Racoski

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Marília Andrade

Hoje é aniversário da blogueira, escritora e poetisa, Marília, dona do blogue VidaFlôr e membro do Grupo Cultural Lápis Autônomos. Desejo um feliz aniversário em forma de soneto:

Soneto a uma jovem escritora

Semeia verbos menina aventura
e, ao semeá-los, lança seu perfume
envolvente. Irressistível leitura!
Flor mais bela, claro e angélico lume.

Poema em vida, viva flor. VidaFlôr.
Marília menina artista canção
vívida em prosa, em verso, encanto e amor
às letras, arte de dor e paixão.

Aceites este soneto singelo
como um presente de um fã, de um amigo.
Verso pobre, mas ricamente belo

porque ele é feito a versejar-te, e sigo
a aplaudir-te, jovem artista, pelo
sempre. As Letras estão todas contigo.

Fábio Pedro Racoski

Vanessa Massacessi

Ontem foi aniversário da Vanessa. Uma amiga daquelas que as histórias do cinema procuram e dificilmente encontram. Enfim, seguem poemas a ela, porque a prosa já não dá conta:

Roxo

Sonhei que tudo estava
roxo.
Casas, carros, gatos,
esquinas, corações.
O céu roxo, as pessoas,
todas roxas.
E no roxo em que o mundo
havia se tornado,
tudo era paz,
tudo era música
e dança sem métrica,
amor sincero
e paixão vivida.

Mas acordei
num mundo colorido
e sem graça.

Fábio Pedro Racoski

-----------

Meus amigos são mais interessantes
Que uma manada de elefantes.

Batista de Pilar

-----------

Parafraseando Batista de Pilar

Meus amigos
são interessantes,
contagiantes,
cativantes,
constantes,
perseverantes,
amantes.

Meus amigos
são muito mais
que dinheiro,
futebol,
pátria,
política,
arte,
religião.

Meus amigos são mais fortes
até mesmo do que uma
manada de rinocerontes,
hipopótamos e elefantes.

Fábio Pedro Racoski

-----------

Um dia,
num dia de alegria futura,
as línguas do mundo serão
mais belas, mais mágicas,
mais humanas, mais etéreas.

Neste dia,
haverá uma palavra
para tentar definir-te.

Fábio Pedro Racoski

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Cães de aluguel

Caro leitor, querida leitora:

Desde que comecei este blogue, em fevereiro de 2007, tive como postura não usá-lo para ganhar dinheiro com esta página. Isso quer dizer que as postagens são livres de propagandas relacionadas há três anos. Ainda assim, resolvi adicionar - discretamente, lá no fim da página - um "banner" de propagandas do AdSense. Banner que, a partir de hoje, não há mais.

Enojam-me as ações dessa cáfila de blogueiros caça-níqueis. Não porque relacionam propagandas ao seus blogues - quem quiser, que o faça -, mas por vender cada vírgula de postagens absurdas, vazias, ridículas e miseráveis em cultura, além dos sempre presentes plágios descarados. E pior: quando recebem críticas negativas ou discordantes - da natureza dos blogues - partem para a diminuição e o descrédito ao comentarista - talvez seja uma forma de se sentirem grandes, ainda que não o sejam.

Não: este blogue não é Cardoso, não é Tabet, não é Tessália. Este blogue é o palco de um artista torto, poeta curitibano, um louco prosador e cantador. Posso ser bom, posso ser não tão bom ou péssimo, mas sou eu. É minha "voz". Sou pequeno, sim. Sou errante, como todo mundo. Mas sou artista. Artista de verdade, e não celebridade fabricada em programas de TV. E você, caro leitor, querida leitora, é minha plateia, minha direção, minha companhia.

Há quem se orgulhe de ganhar a vida com blogues. Eu me orgulho porque o Rádio Gordo é parte da minha vida que quero mostrar. Se for para ganhar dinheiro, que seja com meus livros em papel que virão.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Zilda Arns

Mais uma tragédia mundial: o terremoto no Haiti causou a morte de muitas pessoas. Entre elas, a fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança e da Pastoral do Idoso, Zilda Arns.

Conheço o trabalho da doutora Zilda; sei o quanto foi e é importante para as famílias de vários lugares pelo mundo afora a ação dos agentes da Pastoral da Criança; vi com meus olhos vidas salvas pelo acolhimento dos voluntários e o uso da multimistura, o maná criado pela doutora com sobras de alimentos. Também assisto às pessoas idosas encontrando vida nova nos trabalhos da Pastoral do Idoso.

Mas, para além disso, Zilda Arns era uma daquelas pessoas que conquistam à primeira vista. Não pelo charme ou pela elegância: é pelo sorriso de uma pessoa boa, realmente bondosa, generosa, altruísta. Ela não adotou bebês africanos para desfilá-los em passarelas de Hollywood; ela não montou uma bandinha com crianças pobres para dizer que faz alguma coisa. A doutora amassou barro, foi até as pessoas, sem precisar de câmeras lhe acompanhando.

Não vou me admirar se, agora, o parlamento norueguês entregar o Prêmio Nobel à Pastoral da Criança. Demagogos, como qualquer político, adoram fazer homenagens póstumas. Fiquem eles com o prêmio para seus senhores da guerra: a Pastoral da Criança é muito maior e mais importante que qualquer Nobel.

Pensei em fazer um poema. Pensei em fazer um vídeo com uma bela canção ao fundo. Não: seria mais um demagogo ao fazê-lo. Seria burro e cego. Espero que o mundo não esqueça, e que as pastorais, algo de bom em meio a uma igreja católica politiqueira e suja, continuem.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Cumpreanos

Mais um ano cumprido,
comprido,
comprimido cada vez mais
em meio a números
que crescem.
No calendário, em progressão aritmética.
Na carne, em progressão geométrica.

Sinto-me velho: vi o muro de Berlim
caindo na TV.
Vi a mancha do Gorbachev e a Perestroika.
Vi os oitenta, os noventa, os dois mil...

Sinto-me jovem: solteiro, solto, piá de tudo.
Novos dias, novos desafios, novos paladares.
Nova combinação de cores.

28. E não tenho saudades da infância querida.
Nem anseios aos cabelos brancos que ainda
não chegaram.
Filho, professor, poeta, tentativa de músico,
e muitas latas de Bozzano pela frente.
Assim espero.

Fábio Pedro Racoski

domingo, 10 de janeiro de 2010

Censura

Querem me censurar
porque sou um abuso.

Sou menino de rua,
ranhento cheirando cola.
Sem futuro, sem moeda,
só com a fiel e inseparável dor.

Querem me censurar
porque sou um abuso.

Sou prostituta.
Trabalho com isso mesmo.
Mas não quero isso
para a criança que está lá
do outro lado. Não a vê?

Querem me censurar
porque sou um abuso.

Sou homossexual.
Andamos de mãos dadas
e qual o problema?
Nascemos para o amor
e o amor não tem limite.

Querem me censurar
porque sou um abuso.

Sou limpador de rua.
Sem mim você escorregaria
na própria merda.
Mas você se acha
melhor que eu.

Querem me censurar
porque sou um abuso.

Sou crente.
Crente de verdade.
Não estou com aqueles pastores
que estupram a fé do povo
para depois mijar
em trono de ouro.

Querem me censurar
porque sou um abuso.

Sou ateu.
E qual o problema?
A vida não é para todos?
E cada pessoa tem dois olhos.

Querem me censurar
porque sou um abuso.

Sou a verdade.
Aonde chego, todos se calam,
disfarçam e me ignoram.
Sou pária da Humanidade,
uma luz que estes macacos
insistem em não enxergar.

Querem me censurar
porque sou um abuso.

Fábio Pedro Racoski

sábado, 9 de janeiro de 2010

Oxalá fala iorubá...

Ui! Essa matou o professor de português...
E lá no blogue do Marco Bitaites, ainda nos demoramos discutindo sobre o Acordo Ortográfico e o que a escrita representa para a língua...

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Transformações

Assim segue a vida...
Yasser Arafat (ex-premiê da Autoridade Palestina)
Ringo Starr (baterista dos Beatles)
Jean Paul Belmondo (galã francês)Alceu Valença (cantor brasileiro)
Fábio Racoski (blogueiro curitibano). Este que vos escreve, tentando parecer menos feio. É: não tem jeito!

sábado, 2 de janeiro de 2010

Os prazeres de Midei Shempaz

Midei Shempaz!
Midei Shempaz!

Assim foi acordado o grande sábio, exilado em terras alheias. Mas, desta vez, não chamavam por ele. Era uma donzela sendo atacada por um tarado.

Instantaneamente, com a agilidade de um capoeirista, Midei Shempaz curou-se do porre. Levantou num salto e acelerou violentamente contra o malfeitor, dando-lhe uma cabeçada caprina, atingindo-lhe o estômago. A bela e doce donzela, agradecida ao sábio por salvar-lhe de um destino cruel, disse: "ó, valente homem, que salvaste minha vida, sou eternamente grata a ti, e posso demonstrar minha total gratidão fazendo o que tu quiseres".

O grande sábio, que não era adivinho, desconhecia a vida cortesã da moça, assim como sua relação com o malfeitor ali caído que, na verdade, era seu cafetão. Mesmo assim, percebeu a chance de encontrar naquela agradecida moça prazeres que nunca encontraria no Curitestão.

"Posso pedir o que quiser?", solicitou confirmação o sábio. Ao receber o sinal afirmativo da moça, replicou: "então, bela moça, você poderia fazer para mim um empadão de frango, com o recheio bem sequinho e aquela massa que esfarela toda, acompanhado de uma caipirinha?"

A moça aceitou, ainda que totalmente desconcertada com o pedido. Depois de levar Midei Shempaz à sua casa, fazer a tão esperada refeição e beber caipirinha junto do sábio, ela indagou: "valente homem, por que tu não quiseste os meus serviços carnais em retribuição?". "Para dar um ensinamento, menina!", respondeu o já ébrio sábio. "Logo que percebi sua profissão, decidi mostrar outra vida a você. Quando me disse que faria o que eu quisesse, resolvi pedir um empadão, para testar seus dotes culinários. A caipirinha era para testar sua companhia ao homem nos doces goles. Veja agora, menina: você não precisa trabalhar como davida! Já tem tudo para casar. Quer dizer, falta uma coisa: você gosta de futebol?"

Como a moça era fã de futebol e praticava o esporte nas horas vagas, e ainda encantada com Midei Shempaz, ela resolveu largar a dura profissão e casar com o sábio. Depois daquela noite...

Resolução de ano novo

eu li
joguei
perdi
ganhei

eu ri
chorei
vivi
amei

cantarei
como nunca
não serei
o que fui

viverei
como nunca
viverei...
viverei?

Fábio Pedro Racoski