Páginas

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O menino verde

Era uma vez um menino verde. Nasceu verde, cresceu verde. Sua mãe o vestia com roupas sempre combinando com o verde claro de sua pele.

O menino verde era muito esperto. Aprendeu tudo muito rápido, mas não queria ir à escola – que tinha as paredes verdes. Lá ele não era o filho de seus pais, o esperto, o bonitinho: era apenas um menino verde, personagem principal das piadas e maldades de seus colegas. Lá, até a professora ria de sua verdejante realidade. Lá ele aprendeu que as pessoas mais velhas se apaixonam: isso foi ao conhecer uma menina marrom, tão linda!

O menino verde foi crescendo. Chegou a adolescência, as maldades dos colegas cruéis se intensificaram; o amor dos pais sempre mais forte; os professores a tratá-lo como uma aberração; a menina marrom, ainda mais linda... Escola, universidade, formatura, trabalho...

O menino verde cresceu. Agora é homem, trabalhador bem sucedido. Mas um homem isolado, verde; deixou de viver as dores e os amores. Tinha medo das cores do mundo que o excluía por ser verde. A imagem da menina marrom ainda vivia em sua memória. Até o dia em que a menina marrom apareceu à sua frente, trazendo uma explosão de pulmões e coração acompanhados de um filme que contava toda sua vida de sofrimento verde em segundos. Os dois se abraçaram, contaram sobre suas vidas até ali. A menina – agora mulher – marrom ouviu do menino – agora homem – verde uma confissão de seus mais profundos sentimentos, privilégio que só os pais do rapaz haviam conquistado. Depois, a moça também revelou-se.

Ele não sabia que também riam da menina marrom. Ele não sabia que ela também tinha medo das cores de um mundo que a excluía por ser marrom. Ele não sabia que a mãe da menina marrom foi agredida na rua, simplesmente por ser marrom. E eles, até ali, não tinham percebido que o amor dos dois seria a vitória de todas as cores – verde, marrom, lilás, flicts – sobre as falsas cores do mundo de aparências podres.

3 comentários:

  1. Meninas e meninos marrons e pretos sabem há bastante tempo como é difícil se viver num mundo que privilegia o branco.

    ResponderExcluir
  2. Muito bonito mesmo! Me lembrou um pouco a leitura daquele famoso livro, "O Menino do Dedo Verde", cheio de críticas implíctas em linguagem infantil.


    beijão!

    ResponderExcluir
  3. Nooossa, eu não tinha lido esse, ainda. Achei lindo! Muito interessante a linguagem simples, infantil, esconder tamanha crítica. Beijos, Biofa!

    ResponderExcluir