Páginas

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Carta aberta a Papai Noel

Papai Noel: não acredito em você. Sei que você não existe. Por isso, Papai Noel, vou confidenciar o que espero do futuro.

Espero que o natal seja, a partir de agora, uma data sem presentes e sem festas. Pois até hoje, entre sorrisos malditos e hipocrisia generalizada, o único gesto sincero que vi de uma pessoa com alguém alheio a ela partiu de um mendigo bêbado. E isso foi em maio.

Espero que, no fim de ano, as famílias se preocupem em arrumar bastantes poltronas, cadeiras, sofás e bancos dispostos em roda, para que todos converesm, ouçam o que os mais velhos tem a dizer, cantem, toquem instrumentos musicais, dancem, façam jogos de tabuleiro.

Espero que o Parlamento norueguês conceda o Prêmio Nobel da Paz à Pastoral da Criança, e não ao novíssimo Senhor da Guerra que enganou um mundo todo.

Espero que o cidadão brasileiro revoltado com a impunidade aos políticos corruptos - o que já é quase uma redundância - perceba que ele mesmo, quando usa de seus "jeitinhos" para se prevalecer, é tão corrupto quanto o ministro do Supremo (supremo???), o governador, o senador...

Espero que as agulhas do diabo não perfurem mais o corpo de crianças. Meu desejo macabro é que elas se voltassem aos olhos de seus feiticeiros.

Espero que celebridades mortas não voltem à vida. Acho que elas não gostariam de ver o que suas famílias fizeram...

Espero que as religiões sejam apenas instrumentos de vida em comunidade, de ritual e de mística, tão importantes à cultura e ao indivíduo. Espero, sinceramente, que elas deixem de ser o ópio do povo. Assim, religiosos que drogam as pessoas para ganhar dinheiro vão queimar no inferno do esquecimento.

Espero, Papai Noel, que ninguém mais acredite em você. Ou, se for para acreditar, que seja na imagem mística de um senhor preocupado com as aflições de crianças e adultos, e não de um velho cinematográfico-estadunidense preocupado em entregar o último videogame na confortável casa de um menino branco em Cleveland.

Mas sei, Papai Noel, que você não me ouve. Não acredito em você. Sei que você não existe. Não acredito em você da mesma forma que acredito em Deus: inexplicavelmente. E, por acreditar em Deus assim, tenho esperança. Por isso, sabendo que Papai Noel não existe, espero junto com você por este futuro. Espero.

5 comentários:

  1. Longo e grosso! xDxD
    Muito bom, como sempre.

    Eu também tenho esse sonho de Natal em roda com música e conversa (no fundo somos todos pequenas crianas esperando o papai noel que não vem)

    ResponderExcluir
  2. "Espero, Papai Noel, que ninguém mais acredite em você. Ou, se for para acreditar, que seja na imagem mística de um senhor preocupado com as aflições de crianças e adultos, e não de um velho cinematográfico-estadunidense preocupado em entregar o último videogame na confortável casa de um menino branco em Cleveland."

    Eu me identifiquei muito.

    ResponderExcluir
  3. Fábio,

    Esta carta merece um presente do papai noel por causa da sinceridade, de um conteúdo emocionante, profundo e útopico. Mas, quem não precisa de utopias nessa vida, não é mesmo? É isso que falta: a fé. Essa estranha sensação de uma criança acreditar em algo que não existe, - como disse a garota de cima: no fundo, somos sempre aquelas crianças que esperamos ansiosamente pelo nosso Papai Noel. Ótima carta, pena que você não poderá entregar ao papai noel; quero dizer não a esse "velho cinematográfico- estadunidense".

    ResponderExcluir
  4. Muito bom . As utopias muitas vezes nos pesam como grilhões.

    ResponderExcluir
  5. Quando eu era criança, aprendi do meu padrinho a seguinte música: "Papai Noel não existe não. Papai Noel é tapeação. Papai Noel é pra garoto bobo que fica em casa vendo televisão". Que, tanto no natal quanto no ano novo, haja menos papai noel e banquetes e mais Amor na vida do ser humano.

    ResponderExcluir