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sábado, 31 de outubro de 2009

Análise sintética

Enfim,
chegou o fim.
Hora de começar.

Tudo acabou,
tudo se foi.
Hora de chegar.

Tudo passou,
tudo morreu.
Hora de nascer.

Tudo ódio,
tudo arranhão.
Hora da paixão.

Fábio Pedro Racoski

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

República ou... ou... ?

“Liberdade, abre as asas sobre nós!” Assim roga o refrão do Hino da Proclamação da República, fato histórico ocorrido no dia 15 de novembro de 1889. Na manhã daquele dia, o marechal alagoano Deodoro da Fonseca deu início a uma mudança radical na forma de governar: o Império Brasileiro deixa de existir para se transformar na República do Brasil. Agora, podíamos eleger todos os governantes, desde o prefeito até o presidente.

Mas a República não começou assim: ela foi fruto de um golpe militar, comandado por oficiais de alta patente, que tinham como primeiro representante o marechal Deodoro da Fonseca. Assim que a junta militar tomou o poder, tratou de expulsar a família imperial do Brasil (que voltaria ao Brasil mais de 50 anos depois, sendo o maior exílio político da história de nosso país); muitos foram presos, torturados e mortos. O sonho de uma República no sentido da palavra (do latim “res publica”, "coisa pública") ficou para depois.

No início, apenas pessoas de classe média e as mais abastadas podiam votar. Depois de muitos anos, a mulher conquistou esse direito. Só nos anos 50 é que o Brasil viveu a primeira era realmente democrática, com eleições diretas para os poderes legislativo e executivo, abrangendo todos os cidadãos, sem distinção alguma.

Mas eis que, em 1964, os militares novamente tomam o poder, instaurando uma ditadura mortal e absurda que durou duas décadas. O milagre econômico dessa época se mostrou, décadas depois, uma mentira nojenta, uma farsa que trouxe dívidas astronômicas ao país.

Em 1989, cinco anos depois da campanha “Diretas Já!”, os brasileiros novamente poderiam escolher seu presidente. Numa democracia tão jovem e tão inexperiente, não é de se espantar que Fernando Collor tenha saído vitorioso, mesmo sem propostas concretas, e vindo a ser, depois, o protagonista do mais vergonhoso escândalo de corrupção do país.

Agora, em 2009, com algumas décadas acumuladas de República democrática, o Brasil ainda sofre com escândalos de corrupção, descaso das autoridades, deficiência em educação, saúde, transportes, segurança... Melhor que antes? Talvez.

E o que nós devemos fazer? Como diria Santo Agostinho: todos devemos ter o coração inquieto, assim como Martinho Lutero, frade agostiniano que se revoltou contra a sucursal do inferno que tinha se transformado a igreja católica. Nós também, temos como necessidade cultural e social estarmos sempre inquietos, a fiscalizar, cobrar, escolher bem o candidato a quem votar, até mesmo fazer panelaço: por que não? É de se invejar a politização de nossos hermanos argentinos.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Falta-nos

Disse Jesus:
"Eu sou o pão da vida.
Aquele que vem a mim
jamais terá fome;
e aquele que crê em mim
jamais terá sede".

Fome e sede;
de fé,
em pé,
de paz,
incapaz,
de cultura
formosura,
de poesia
filosofia.

Eita mundo
vagabundo!

Fábio Pedro Racoski

sábado, 24 de outubro de 2009

O olho do mal

Ai, meu olho esquerdo... Inchado, inflamado, "conjuntivítico". E eu, por dois dias, mantive minha rotina de trabalho com a órbita ocular fazendo pressão no cérebro, causando uma dor de cabeça incrivelmente latejante.

Depois de ouvir palavras dos colegas de trabalho como "por que veio trabalhar?", e os alunos, em concordância, "por que não ficou em casa, professor?", depois de trabalhar na sexta-feira até as 21:30 (normalmente seria até as 22:30), fui para casa, depois de horas de aulas de português. Acordei no sábado causando um tremendo susto em minha mãe e minha irmã, tamanha era a monstruosidade do sinistro olho moribundo.

"Vou te levar no médico da clínica", disse minha irmã (sob ordens de minha mãe). E lá fomos, ainda de manhã, pagar 40 reais para a consulta. Esperei dois minutos e a enfermeira convocou-me para a pré-consulta. Pressão como sempre, 12 por 8 (difícil para alguém da minha circunferência), temperatura sovacal normal, a língua uma beleza. E lá fui à outra sala, ser atendido por um médico de sotaque sulamericano.

O simpático hispânico pediu que eu desligasse o celular - e o fiz. Examinou novamente minhas entranhas bucais, examinou o olho-monstro (o que causou alguma dor), apontou-me uma lanterna ofuscante, pediu para que eu contasse a história do meu mal. "Estou passando colírio tobramicina", contei ao doutor. "Sí, sí, continuarás con ele.", disse o doutor, que me receitou mais dois medicamentos: um antibiótico cefalexina e uma pomada gentamicina. Disse-me que infecção no olho é coisa muito séria, e deve ser combatida por todas as vias - superiores, pelo menos.

Pechinchei preços na quarta farmácia para os antibióticos e continuei em busca da gentamicina, mais sumida e procurada que o Santo Graal. Depois de algumas sessões do tratamento intensivo, já no sábado à noite, a pelota verruguenta do olho esquerdo perdeu a coloração roxo-defunto para ganhar um tom vermelho-irritação. A aparência no rosto ainda lembra um Rocky Balboa surrado pelo Apollo Creed (só não grito pela Adrian).

O destino assombroso do olho do mal ainda está por vir...

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Adeus, eu

Hoje,
aquela velha criança
com medo das ruas,
com medo dos outros,
com medo de si,
morreu.

Hoje
aquela velha criança
que já devia ter ido,
que arrastava uma
carcaça malcuidada,
se foi.

O velório
será longo.
O corpo
será cremado.
E das cinzas nascerá
o jovem adulto
há muito aprisionado.

E das cinzas nascerá
a Fênix luminosa
a brilhar
onde outrora havia
total escuridão.

Fábio Pedro Racoski

domingo, 18 de outubro de 2009

O infante aprendiz

Certo dia, encontrava-se Midei Shempaz dormindo sobre um banco da praça central de Kinze. Um garoto, beirando os sete anos, cutucou seu olho, fazendo o sábio acordar rapidamente e gritar: "não que ainda tô vivo!". Ao olhar para a criança, Midei Shempaz disse:

- Ah, piá: sabia que titio podia ter ficado cego, ou infartado?

- Desculpa, tio Midei Shempaz!

- Deixo, sim. Não tô brigando!

- Mas não é o nome do tio: Midei Shempaz?

- ... É mesmo, tem razão, piazinho inteligente. Diga: o que quer saber desse tio barbudo?

- Minha mãe disse que o senhor é muito inteligente.

- Ah, obrigado!

- Ela disse que eu preciso estudar pra ficar inteligente e não ser um bêbado vagabundo. Mas ela disse também que o senhor é um bêbado vagabundo, e que isso é ruim. Agora eu não entendi, se o senhor é inteligente, como pode ser bêbado e vagabundo.

- Sua mãe tem toda razão, menininho. Você precisa estudar pra ficar inteligente igual o tio aqui. Mas eu não sou bêbado e vagabundo: sou apenas um poeta filósofo que trabalha de apreciar a vida, a cidade, este banco da praça, aquela senhora que passa ali na rua...

- Ah, o senhor não é bêbado nem vagabundo?

- Não, menininho, não sou.

- Ôba, brigado tio! Vou falar pra minha mãe que eu posso ser igual o senhor quando crescer, porque o senhor não é bêbado nem vagabundo!

E, assim, Midei Shempaz garantiu para o futuro mais um sábio que, como ele, habitará as ruas destas terras do Curitestão.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Midei Shempaz e a definição de Céu e Inferno

Certo dia, chegou às ruas de Kinze um jovem padre, sedento pelo conhecimento escatológico que nem seu médico, nem seu bispo lhe ofereciam. Ele buscava por respostas sobre o Céu e o Inferno, e sabia que naquela cidade, naquelas ruas, perambulava um grande sábio.

Seguindo o rastro das barbas falhas do sábio, o jovem padre o encontrou, em uma taverna, bebendo o mais puro Steinhäger da região.

- És tu o grande sábio destas terras? -, pergunta o padre.

- Sim, sou eu, Midei Shempaz! -, responde ebriamente o sábio.

- Desculpe-me!

- Não, este é meu nome!

- Ah... Preciso saber de ti, ó sábio, qual a diferença entre o Céu e o Inferno?

- Vejo que você é padre. É, a Igreja é pouco prática nesses assuntos. Mas vamos lá, meu filho: imagine o Céu e o Inferno como duas festas de casamento. O Céu é o casamento de pobre: bêbados, cerveja barata, vinho barato, mulheres com vestidos horríveis, carne dura, briga. O Inferno é o casamento de rico: restaurante chique, champanhe, comida coisa fina, mulheres com vestidos de grife e siliconadas (algumas gostosas), alguns debates em conversas de cavalheiros e damas.

- Não entendo: dessa forma, parece que o Inferno é melhor que o Céu. -, respondeu, confuso, o padre.

- Parece mas não é, não, meu querido. No casamento de pobre, tudo se extravasa ali, a alma está na ponta da língua, na ponta dos dedos e no bafo de cerveja; o que se levam são os salgadinhos, dentro da bolsa, símbolos da experiência redentora. Isso, mesmo com bafo, é o Céu. No casamento de rico, tudo é aparência, é Photoshop, depois um fica maldizendo o outro, pelas costas; leva-se, dali, a luxúria e um suvenir, símbolo da experiência maldita. Ah, isso é um Inferno!

Ouvindo isto, o jovem se desfez de seu colarinho de padre, deixando de sentir a angústia sufocante da ignorância.

O grande sábio Midei Shempaz

Há muito tempo, nas terras do Curitestão, vivia um jovem senhor chamado Midei Shempaz. Conhecido por sua sabedoria e sua apurada sensibilidade para questões do Céu e da Terra, Midei Shempaz era procurado por pessoas de diversas partes, curitãs ou estrangeiras, aos quais ensinava ou, segundo o próprio, "fazia-lhes enxergar sua sabedoria interior", com poucas palavras (normal para um curitão).

Vivendo como um mendigo nas ruas da capital de Curitestão, a cidade de Kinze, Midei Shempaz era admirado e respeitado por alguns, discriminado e odiado por outros – ódio que mais parecia temor. Seu passado como arqueiro-mor da 1ª divisão de artilharia de Curitestão rendia à sua pessoa a imagem de um homem forte e elegante. Para completar sua definição, Midei Shempaz era entusiasta de festas e bebedeiras, sendo campeão na disputa de Submarinos e chopes.

Midei Shempaz começou cedo seu caminho de sabedoria: já aos 13 anos ele sabia mais sobre física quântica e análise do discurso que seus professores. Aos 15, tentou publicar sua Teoria do Tudo e do Quase Nada. Mas como era muito pobre, não conseguiu fazê-lo. Em momentos de extrema crise de produção intelectual, produzia livros que considerava “sub-literatura”. Daí nasceu o gênero literário da auto-ajuda que, segundo Midei, foi seu “maior erro de todos os pisos da vida”.

Nas próximas edições, publicaremos um pouco da produção intelectual de Midei Shempaz, junto a alguns de seus ensinamentos, colhidos de seus discípulos. Tentaremos, também, resgatar a Teoria do Tudo e do Quase Nada, trabalho extremamente árduo mas que, se lograr êxito, revolucionará para todo o sempre o pensamento humano.

sábado, 10 de outubro de 2009

Tremei, Frestão!

"El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha, compuesto por Miguel de Cervantes Saavedra."

Estas foram as primeiras palavras lidas na capa de um livro publicado em 1605, que ganhou sua segunda parte em 1615 e, hoje, é considerada a mais fantástica obra literária que a humanidade já produziu. Dom Quixote, o louco de cada um; Sancho Pança, o prático e grosseiro que vive em nós; Dulcineia, o platonismo do qual não conseguimos fugir. Uma obra emocionante, o livro que já li três vezes, em espanhol, sem me assustar com suas mil e tantas páginas (e livro se conta assim?).

"Viajei" bastante para chegar no motivo dessa postagem: a escola de samba União da Ilha trará como tema de seu desfile, em 2010, "Dom Quixote de La Mancha: o cavaleiro dos sonhos impossíveis" (também se referindo à canção do espetáculo da Broadway, "O homem de La Mancha"). Ainda estão por escolher a canção que ilustrará esse tema, mas eu já antecipo a vencedora (a mais empolgante e "quixotesca"!):

Sou um tanto quanto avesso ao Carnaval, mas vou torcer para a União da Ilha. QUIXOTESCOS, UNAM-SE!

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O bobo

Lá vai o bobo
em seu trote falido.
Cheio de fé,
vazio de sentido.

Fábio Pedro Racoski

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

MTV - canal da música???

MTV. Sigla que acompanha a definição original inglesa: "music television". Uns pronunciam de forma ligeiramente americanizada, "emitivi"; outros a proferem como "emetevê". Ainda há os que usam a forma "metevê", recordando a Fenemê - ou FNM, "Fábrica Nacional de Motores".

O nome prediz uma rede de televisão voltada totalmente à música, em todas suas nuances e manifestações. Mas isso não acontece: MTV poderia significar, acertadamente, "mainstream television". Em seus inúmeros clipes, documentários e noticiários, a temática não foge dos ritmos "globalizados" (rock, reggae, rap, R&B, etc.), do pop, e, como uma espécie de "cota", alguma coisa de samba.

Tão influente entre os jovens, a MTV se nega a divulgar boa parte da música consumida pelos mesmos, em diferentes regiões do Brasil: sertanejo, forró, vanerão... A emissora ainda tentou algo sobre o tecnobrega do Pará, e parou nisso. Sem falar em vertentes musicais que poderiam contar com o apoio de uma "Music Television": a música caipira, os ritmos regionais e folclóricos, que ainda sobevivem, mas encontram espaço na mídia única e exclusivamente dentro de canais culturais, como a TV Cultura ou a Futura.

Uma emissora de televisão administrada pelo grupo Abril tem cacife para ser muito mais do que é. Mas estaciona no mesmo geralzão desde há muito tempo. Enquanto isso, vai perdendo seus vejotas (ou VJ's) para outras emissoras. Na sessão de variedades (além da música), ainda consegue manter certa qualidade. Mas será difícil segurar Marcelo Adnet, Kika, Titi, Dani Calabresa, Bento Ribeiro e companhia dentro da emissora. Marcos Mion já foi para a emissora dos pastores da Universal...