Páginas

terça-feira, 28 de abril de 2009

XX, XY

Mulheres.
Mulheres.
Nada haveria sem
mulheres.

Do ventre, a vida,
do peito, o leite,
dos braços, a força,
dos lábios, o beijo,
da boca, o sorriso,
dos olhos, a alma.

Prefiro eu
ser um homem
feminino,
de sentidos femininos,
de olhar feminino,
apaixonado
e amante do mundo
feminino.

Mulher menina,
mulher moça,
mulher senhora
da vida e de si.
Forte na delicadeza,
independente na carência,
matriz de mim.

E sou homem,
cativo e parceiro
da mulher.
Homem confuso,
atrapalhado e organizado,
metódico e porra-loca,
Cronos, senhor do espaço-tempo
afixado num beijo.

Fábio Pedro Racoski

sábado, 25 de abril de 2009

Susan Boyle: a feia mais bela

Amiga leitora, amigo leitor,

Você provavelmente já assistiu ao vídeo mais badalado do momento no Youtube: Susan Boyle, candidata no programa "Britain's got Talent", uma espécie de Ídolos do Reino Unido. Se não viu, acesse este endereço: http://www.youtube.com/watch?v=xRbYtxHayXo (respeitando uma solicitação do publicante, a incorporação do vídeo em outras páginas foi desativada).

Susan Boyle, uma mulher de 47 anos, aparentando mais, com um vestido pobre, cabelo mal cuidado. Feia. Nomeadamente feia, aos nossos olhos criados dentro de uma estética por vezes rígida. Carrega forte sotaque escocês caipira. Vive sozinha, com seu gato, nunca namorou. Disse ela que seu referencial na música é Elaine Paige, uma diva britânica da música e do teatro. E qual o espanto de todos quando Susan solta a voz para cantar...

Por quê? Quem disse que para cantar bem, precisa ter beleza, vida sexual ativa, roupas de grifes, cabelos sedosos e sombrancelhas finas? Se fosse assim, a música seria muito mais pobre. Nomes como Percy Sledge, Joey Ramone, Willy Nelson, tantos outros, não teriam vez no mundo musical?

O que espanta, nesse vídeo, não é Susan Boyle cantar divinamente. É nossa presunção em pensar que ela não poderia fazê-lo.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Identidades

Além dos pelos ralos da barba,
além do longo cabelo,
além de pele pálida-amarelada,
carne mal cuidada, músculos ociosos
e gordura,
mais além dos ossos sobrecarregados.
Lá estou eu.

O eu que nem eu mesmo sei
onde estou,
onde sou.
O eu que eu espero a cada dia
acordar mais disposto,
mais saudável,
menos alérgico a si mesmo.
O eu que é o oposto
dessa gente bonita
bulímica de si mesmo:
Este eu tem vontade de ser eu.
Por mais que isso seja difícil.

O eu é poeta, é cantor,
é músico, é orador,
por mais que eu seja fraco nos versos,
nos acordes, na fala
de alto volume e voz desagradável.

O eu não se engana,
por mais que eu tente enganá-lo.
O eu aparece,
por mais que eu tente escondê-lo.
O eu se importa,
por mais que eu tente dissuadi-lo.

O eu é
o que eu gostaria de ser
e sou,
mas não estou.

Fábio Pedro Racoski

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Curitiba, julho de algum ano

O frio curitibano
traz à minha memória
imagens de nós dois, nas ruas
úmidas, nebulosas e congelantes
da cidade.

Imagens de você, com frio;
eu cedendo-lhe meu casaco,
meu braço,
meu abraço,
minha alma
tão quente
quanto o frio curitibano.

Cenas do café quente compartilhado,
do prensadão exagerado,
das mãos,
dos olhos,
das bocas,
das vozes...

O frio curitibano
traz aos meus ouvidos
sua risada.
Sua voz cativante,
seus lábios atraentes,
sua presença
ao mesmo tempo
extasiante e tímida.

Ó, frio curitibano...
Leve-me daqui!
Leve-me em seu assovio
num vento bom
até aquela
que me faz sentir calor.

Que surpresa...
O frio curitibano
traz à minha frente
você de volta.
O frio curitibano
me leva a você
e nem percebo
que sou seu,
da mesma forma
que esse frio
toma meu corpo.

Fábio Pedro Racoski

Ah, o Ocidente!

Cada vez mais, tenho orgulho de ser ocidental. O Ocidente, que tantas mazelas me traz, é o mesmo que me maravilha e me fascina a cada dia.

Eu pensava que só os mongóis, os tuvanos, os povos orientais, entoavam cantos polifônicos de suas gargantas (como mostrei num artigo em 28 de novembro do ano passado: http://radiogordo.blogspot.com/2008/11/cordas-vocais.html). Pois descobri, com surpresa e alegria, o "cantu a tenore" de Barbagia, na Sardenha; ou o "concordu" sardo.

Sardenha é uma ilha pertencente à Itália. possui sua própria língua - o sardo. Um grupo de cantu a tenore, também chamado "tenore" (que não tem relação com o "tenor"), é formado por um solista, o "oche" (pronuncia-se "oque"), que canta proclamando versos poéticos; e três vozes corais: "mesu oche", "contra" e "bassu". Esses dois últimos desenvolvem seu canto com a técnica de garganta. Só ouvindo para entender melhor!

Ouçam esse "tenore" formado por jovens sardos: "Sos Piztinnos de Irgoli".

terça-feira, 14 de abril de 2009

Amigo leitor, amiga leitora,

Quero agradecer a todos os seus comentários, sempre carinhosos, edificantes, revigorantes. Sempre os recebo com carinho, respeito e alegria. Desculpem-me se pareço frio ou arrogante em raramente respondê-los: não o faço por não ter palavras.

Preciso pedir desculpas, também, aos insólitos blogueiros que acompanham este humilde Rádio Gordo: devo-lhes comentários, eu sei. Nem sempre eu sou bom com as palavras. Prometo esforçar-me para deixar, sempre, algumas linhas escritas.

Unidade

Unidos somos vivos.
Separados somos resto de vida.
Unidos somos fortes.
Separados somos animais.
Unidos somos perseverantes.
Separados teimamos em errar o caminho.
Unidos somos gigantes.
Separados somos covardes.
Unidos somos semelhantes aos grandes.
Separados somos primatas.
Unidos somos sábios.
Separados vivemos à sombra da ignorância.
Unidos somos Deus.
Separados somos carne.
Unidos somos família.
Separados somos inimigos.
Unidos fazemos a paz.
Separados fazemos a guerra.
Unidos fazemos a vida.
Separados fazemos a morte.
Unidos somos povo.
Separados somos egoísmo.
Unidos somos pátria, nação, igreja, civilização.
Separados não somos ninguém.
Enfim, separados, simplesmente, não somos.
Unidos somos um.

Fábio Pedro Racoski

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Via Sacra

Ó, Jesus!
Os cravos que rasgaram tua carne
cravejam meu corpo fraco.

Sou missionária,
sedenta por verdade e justiça.
Mártir dos cravos de chumbo
cravejados por usurpadores
da terra.

Ó, Jesus!
Os cravos que rasgaram tua carne
cravejam meu corpo fraco.

Sou negro.
Além disso, sou cidadão.
Lutei por direitos iguais,
Falei de meus sonhos,
E fui cravejado com o chumbo
dos cegos d'alma.

Ó, Jesus!
Os cravos que rasgaram tua carne
cravejam meu corpo fraco.

Sou pai de família,
trabalhador assalariado.
Cravejo dia após dia
meu corpo surrado
para ninar meus filhos
em paz.

Ó, Jesus!
Os cravos que rasgaram tua carne
cravejam meu corpo fraco.

Sou mãe.
Sou pai.
Sou a fortaleza dos filhos
e os cravos nas ruas
ferem meus muros.
Mas não eles.

Ó, Jesus!
Os cravos que rasgaram tua carne
cravejam meu corpo fraco.

Sou professor.
Minha vida é ensinar;
meu amor é dividir e somar.
Os cravos que ferem meu corpo
vociferam, ignoram, agridem,
apunhalam, matam.

Ó, Jesus!
Os cravos que rasgaram tua carne
cravejam meu corpo fraco.

Sou religioso.
Confio em Deus,
nos deuses.
Sou ferido pelos cravos
da instituição,
das indulgências,
da intolerância,
da hipocrisia.

Ó, Jesus!
Os cravos que rasgaram tua carne
cravejam meu corpo fraco.

Sou ateu.
Luto por uma sociedade justa
e livre.
Mas os cravos dos radicalistas
e indiferentes
rasgam meus pés na caminhada.

Ó, Jesus!
Os cravos que rasgaram tua carne
cravejam meu corpo fraco.

Sou o mundo.
Dou vida às espécies,
dou água às bocas.
Mas estou sujo,
ensanguentado
e com febre.

Ó, Jesus!
Os cravos que rasgaram tua carne
cravejam meu corpo fraco.

Fábio Pedro Racoski

segunda-feira, 6 de abril de 2009

O fantasma de Port Vila

O mar engolirá Vanuatu
e o levará para
as profundezas
do Pacífico.
E o fantasma de Port Vila
virá para assmobrar
a humanidade
e lembrá-la
de sua culpa.

A culpa pelo derretimento
dos gelos polares.
A culpa pela ilha de plástico
flutuando pelos mares.
A culpa por desabrigar
povos milenares
de suas terras:
"ecodegredados".

"Vou-me embora pra Austrália",
diz o fantasma.
Ou quem sabe Nova Zelândia,
se ainda os polos
não vomitarem todo seu gelo
nos oceanos.
Se então a humanidade
não contaminar mais
o estômago da Terra.

O fantasma estará vivo,
mas sua terra, morta.
Triste Atlântida moderna,
chaga marítima da
violência humana.

Fábio Pedro Racoski

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Metamorfose Ucrônica - ou "A barata que eu não fui"

Autor: Fábio Pedro Racoski

Certa manhã, ao despertar de sonhos idílicos, Gregor Samsa encontrou-se à cabeceira de uma cama metamorfoseado numa águia grandiosa. Numa mescla de espanto e fascinação, analisou seu corpo: patas, garras firmes segurando-se à cama, penas densas e quentes... O bico fez-lhe rir, pois trazia à memória seu nariz hebreu. Saltou algumas vezes. Treinou movimentos. Abriu os braços, agora asas, bradou seu assovio retumbante que há muito estava preso no peito de um caixeiro viajante e saltou da janela do décimo andar.

Liberdade! Liberdade! O vento assoviando nos ouvidos agora nus... A nova e estranha sensação do tremer das penas... O doce sentimento de ver a inveja nos olhos dos humanos: pobres primatas pequeninos, rastejando sobre o asfalto sujo até a porta de casa. Gregor Samsa, de tantos sonhos intranquilos, antes fora um inseto monstruoso. Agora, metamorfoseado em águia, era enfim humano.

Gregor podia ver as antenas dos arranha-céus, atravessar a floresta de aço e concreto num piscar de olhos, tocar com as garras os cimos dos montes... A cidade sufocante e suicida era uma simplória paisagem urbana sob suas asas. O mar surgia no horizonte, anunciando novos mundos. O homem-pássaro, Ícaro que deu certo, Super-Homem em trajes magistrais, cruzava os céus e as nuvens numa dança aérea de êxtase, alegria e satisfação. Gregor Samsa sentia-se o próprio deus.

Mas os humanos rastejantes têm inveja de deuses alados, de homens-pássaros que mostram nossa insignificância existencial. E os invejosos lançaram suas cápsulas de chumbo quente, na esperança de torná-lo igual a eles novamente, ainda que morto. As balas não acertaram Gregor Samsa, com exceção de uma que lhe raspou as penas do tórax, o que resultou em mera perda de altitude. Pobres humanos: até assim eram fracos!

Gregor Samsa bradou novamente seu assovio imperial - um adeus aos primitivos que ali ficavam. Voou, voou, até sumir no horizonte dos humanos. Foi para junto de águias grandiosas, homens celestes como ele.

---------------------------------------------------------------------------

Para quem quiser saber mais sobre Ucronia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ucronia
Para quem quiser saber mais sobre "A Metamorfose" (de Franz Kafka): a obra para baixar no site do governo "Domínio Público".