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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Dia sem fim (Parte VII)

Depois de eu e Irina passarmos por todo o repertório violeiro, chegando até mesmo a Mercedes Sosa, Atahualpa Yupanqui e Joan Manuel Serrat, chegam enfim os dois “escolhidos”. “Vocês não se sentem num manicômio?”, perguntei. “Não: esse mundo maluco é muito melhor que o mundo da minha infância com pai bêbado que batia em mim.”, respondeu Wellington que, sim, teve uma vida de muitos obstáculos. Sarah, sempre lacônica, resumiu-se num simples “é estranho”.

“É hora de começar o sono.”, conclamou-nos Irina. Não haveria de ser em plena calçada. “Vamos para minha casa, que ainda existe, eu acho.”, disse Wellington.

E lá fomos. Uma casa simples, pequena, porém muito rica em detalhes e cuidados. Acabamos nos estendendo em colchões e sofá. “E agora?”, perguntou Sarah. “Durmam, simplesmente. A gente se encontra lá nos sonhos.”, finalizou Irina. Todos os quatro estávamos muito ansiosos e entupidos de medo: seria difícil dormir assim. Mas, do nada, um sono se abateu sobre nós, como se fosse um veneno, uma droga, um medicamento. A luta para fechar os olhos passou a ser uma batalha para deixá-los abertos. Batalha à qual todos se renderam.

Mais uma vez, um sonho estranho: eu só avistava uma neblina púrpura muito densa por todos os lados, e ouvia a voz de uma criança cantarolando qualquer canção. Chamava pela Irina e não tinha resposta. “Wellington? Sarah?”, nada... O que existia: a voz da criança a cantar e a neblina púrpura. Mais nada. E a voz da criança cada vez mais próxima. “Tolle lege””, ela cantava num latim macarrônico. “Tolle lege, tolle lege.”, tomar e ler o quê? Lembrei: esse é o canto que Agostinho ouviu e acabou levando-o a converter-se cristão. “Sonhos! Poupem-me de experiências religiosas agora, por favor!”, respondi encarando a neblina. Eis a réplica recebida: “tolle lege, tolle lege”. Essa repetição preenchendo o nada em minha volta parecia me deixar embriagado novamente. A Irina disse: “A gente se encontra lá nos sonhos.”, mas aonde estão todos? Nunca acreditei em poder de sonhos, mágica, universos paralelos, religião. Por que haveria de crê-los agora? Era mais um sonho, só isso. Tudo isso deve ser sonho, mesmo, e amanhã, segunda-feira, eu levantarei às seis para trabalhar.

Uma voz diferente, firme e já rouca do tempo, interrompe o sonho insólito: “Não negue a si mesmo, filho!”. Pai? Meu falecido pai? O vinho era forte... “Não se negue ao que você realmente crê!”, repetia meu pai. “Você está morto, pai.”, respondi. “Mas ainda vivo, em você, em outro lugar.”, replicou a voz de meu progenitor. E passei a divagar, pensar sobre mim mesmo. Por viver o modismo particular de ser cético, deixei de experimentar sentimentos comuns até mesmo para céticos, como o amor, a paixão, a compaixão. Talvez aquele sonho fosse uma prova à minha farsa. Talvez todos esses fenômenos bizarros tenham sentido fora do meu falso ceticismo.

A neblina púrpura se desfez. A voz da criança calou-se e pude ver, à minha frente, os “escolhidos”, Irina, Sarah, Wellington.
CONTINUA...

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